AzimuTTe: Aldeias Históricas I
20 de Setembro de 2003
Foi aqui, precisamente aqui, neste Largo do Castelo da mui valente aldeia de Linhares da Beira, há muitos séculos atrás, corria um 20 de Setembro, que se encontraram os nove mui nobres e valorosos cavaleiros da Roda Redonda. Assim chamados porque se costumavam reunir ao redor de uma roda redonda, para discutir o sentido da vida e o papel do Homem no Mundo.
Ora foi precisamente num conciliábulo desses, ao cabo de muitos outros, que chegaram à conclusão que apenas uma coisa lhes poderia trazer a paz de espírito por que tanto ambicionavam e, simultaneamente, a resposta a todas as suas dúvidas, questões e preces. Algo de muito transcendente, místico, único e cuja verdadeira existência ainda carecia de provas. Foi assim que D. Manuel, D. Luís, D. Vítor, D. Ricardo, D. João A., D. Miguel, D. João S., D. António e D. Hugo se lançaram naquela que seria a missão das suas vidas: A Busca do Hidromel Sagrado!
Decidindo começar as buscas por Linhares da Beira, para lá se dirigiram com os respectivos séquitos, raiava o dia para os lados das ilhas dos Açores, porque por ali o sol já ia algo subido, com os habituais atrasos que sempre caracterizaram as suas acções. Deambulando pelas medievas ruas, nada encontraram com excepção de uma Venda aberta. O humilde e prestável estalajadeiro, do Hidromel Sagrado nada sabia. Em contrapartida, forneceu-lhes uma bebida escura, de aroma algo infecto e putrefacto mas que, vá-se lá saber porquê, lhes agradou bastante e que pagaram a peso de oiro. De tal modo que o ainda humilde e prestável, mas já algo abastado, estalajadeiro gritou para a sua gentil e delicada esposa: “MULHER, pára de depenar o frango e arreia-me a mula que vamos passar o resto do dia à costa”.
Os nossos nobres cavaleiros, montados nas suas montadas, partiram, também eles, dando início ao seu périplo por montes e vales. Decorridas algumas léguas, tendo-lhes passado o efeito do esbanjamento na Venda, tornaram-se algo Fuinhas. Não foi de admirar, portanto, que, após mais vales e montes, tenham desembocado na também mui valente vila de Trancoso, onde a busca do Hidromel Sagrado decorreu sem despesas, mas também sem frutos. Decepcionados e desiludidos com a falta de cooperação dos aldeões, lançaram-se em galope desenfreado para a metrópole seguinte: Marialva. Mas lá, nem vivalma. Cansados e confusos com tal abandono, decidiram abancar e retemperar as forças com um fausto almoço, enquanto reflectiam no curso a tomar. Optaram por Leste e partiram de ânimo algo quebrado pela sonolência dos estômagos atulhados.
À passagem pelo Rio Coa, o escudeiro de D. Vítor alerta para um aroma estranho; nas suas palavras, um cheiro a energia eléctrica. Surpresa geral pela blasfémia a raiar a heresia, pois, como se pode saber o cheiro de uma coisa que ainda não foi inventada? Houvesse por ali lenha para queimar (a que havia já tinha sido usada) e tê-lo-iam lançado à fogueira. Afinal o peculiar cheiro devia-se a uma grave crise de flatulência de que padecia a montada de D. Vítor.
Mais umas léguas e ataca-se Castelo Rodrigo por um caminho de cabras. Na aldeia, uma Venda aberta e... OH! Momento mágico e inolvidável. Aos seus olhos cansados, revelava-se, finalmente, em toda a sua pujança, o tão almejado Hidromel Sagrado. Com um fervor religioso, atiraram-se a ele. Esvaziaram-se cálices atrás de cálices. No meio de muita emoção, D. Manuel afirmava que, apesar de não ser apreciador, estava totalmente rendido às qualidades balsâmicas de tal elixir. D. Luís jamais tinha sentido tais calores. Outros houve que intercalavam a degustação com a ingestão de líquidos menores apenas para melhor gozar o genuíno. No fim e a uma só voz, os corações falaram alto: SALVÉ HIDROMEL SAGRADO. NÓS TE VENERAMOS! Alforges cheios, lançaram-se caminhos fora numa tentativa de dissipar os vapores. Só dissiparam pó.
Deram por eles na fortificada vila de Almeida. Ainda não completamente refeitos (houve quem cavalgasse, desenfreadamente, para a frente e para trás ao longo da muralha, sem razão aparente), decidiram caminhar um pouco para gozar o ar fresco da noite que caía. Descansavam já as pernas quando, sob os seus olhares atónitos, um bezerro veio ao mundo. Tomaram isto como um sinal divino e sentiram-se uns privilegiados por se encontrarem ali a assistir ao milagre da vida. Cada um, em paz consigo próprio, dava por terminada a sua Busca do Hidromel Sagrado.
Nota do Cronista
Esta aventura épica, verídica e autêntica de Lusos por terras Lusas seria, mais tarde, aproveitada, plagiada e deturpada por uns Saxões, que se intitulavam da Távola Redonda e, mais tarde ainda, transposta para o cinema por uns Monty Python, como um “Cálice Sagrado” e por um tal Spielberg, em duas versões: “Os salteadores da arca perdida” e “A última cruzada”. Nenhuma delas logrou, porém, atingir o humanismo e sensibilidade da original.
O cronista: Nuno Furet
Fotos: Vários autores