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Alfaiates

Todo-o-Terreno
AzimuTTe: Alfaiates

03 de Setembro de 2016

   O Programa das Aldeias Históricas de Portugal tem imensas virtudes, reconhecidas tanto pelo mais anónimo viajante, como pelos mais variados operadores turísticos e entidades oficiais. É uma realidade inquestionável, patente nas Aldeias abrangidas. Porém, e há sempre um, condenam ao esquecimento outras igualmente merecedoras de interessada visita. Não sei que critérios é que estas não cumprem, nem se o Programa está definitivamente encerrado ou se prevê novas adesões, o que seria ideal e necessário, porque impediria um resvalar da conservação e manutenção da autenticidade e impulsionaria o desenvolvimento local, à semelhança do que aconteceu com as outras doze.

    Vem esta introdução/desabafo a propósito do facto de a Câmara Municipal de Almeida apenas disponibilizar folhetos de Almeida e Castelo Mendo (Aldeias Históricas). Cabe ao visitante descobrir e desfrutar de Castelo Bom, por feliz acaso, engano, distracção ou qualquer tipo de conhecimento prévio, e que bem faz em visitá-la. Em termos de folhetos, não sei qual é a posição da Câmara Municipal do Sabugal, mas arriscaria que Vilar Maior e Alfaiates estão ofuscadas por Sortelha, na oferta camarária. Para mim, a questão não passa exclusivamente pelo património erigido e conservado, mas, também e sobretudo, pela História, pelo papel que estas localidades desempenharam naquilo que hoje é Portugal, concretamente, nestas designadas terras de Riba-Côa. No entanto, a minha opinião vale tanto quanto a cadeira da Mafalda.

     Começámos em Almeida, onde, às 10h da manhã, já apertava o calor que nos iria acompanhar todo o dia. É sempre um prazer deambular por estas ruas e muralhas carregadas de episódios marcantes da nossa nacionalidade. Conhecê-los e compreendê-los, é dar outra dimensão ao que se vê e era essa vertente que os participantes buscavam.

     Atravessado o Côa, seguimos pelo planalto beirão até Castelo Mendo. Tivemos a aldeia só para nós e apenas foi de lamentar que alguém teime em estacionar uma viatura de uma unidade hoteleira local no acesso ao castelo, estragando o enquadramento para as fotografias e obrigando os visitantes a passar entre ela e as paredes. Seria de esperar um pouco mais de civismo e sentido turístico. Colocando este aparte à parte, são bem visíveis as tais virtudes de ser classificada como Aldeia Histórica. A consulta, durante o almoço junto à Porta da Vila, do Livro das Fortalezas, de Duarte de Armas, permitiu-nos ver como estavam em 1500 os castelos de Riba-Côa que iríamos ainda visitar. Curiosamente, algumas ruínas parecem manter-se.

      A escassos 8km, e atravessado novamente o Côa, encontramos Castelo Bom. Também aqui, tivemos a aldeia só para nós, surpreendendo os habitantes. Castelo Bom merece melhor sorte do que ser votada ao esquecimento. Depois de destruída pelo exército francês, para não recuar mais, preterida num apeadeiro da Linha de Caminho de Ferro da Beira Alta, a sua Torre de Menagem destruída por vandalismo, a A25 aos pés, retirando-lhe o movimento da N16, e ser excluída na última escolha para Aldeia Histórica, soube, mesmo assim, preservar bem o que tem, testemunhos de uma História multissecular. Merecia, pelo menos, um folheto no Posto de Turismo da sede do concelho.

      Seguindo para sul e após uma pausa na margem do Côa para refrescar, chegámos a Vilar Maior, que estava em festa, o que nos limitou um pouco os movimentos. De qualquer modo, confirmou-se mais uma pérola do nosso Património, bem preservada e cuidada, dentro das possibilidades e boas vontades oficiais e particulares, mas à margem dos roteiros, diria da moda, se isso não fosse injusto para com o outro património. O que custa é ver que viajam por um e não se dão ao trabalho de procurar o outro.

       Destaque para o castelo e sua torre, com a escadaria em pedra embutida nas paredes (algo raro, a julgar pela nossa experiência) e pedras com siglas dos canteiros medievais, e ruínas da Igreja de Santa Maria do Castelo, que admiramos com implícito respeito pelo que foi, pelo que resiste.

     Antes de entramos em Alfaiates, sol já raso para Oeste, uma breve paragem no Santuário de Nossa Senhora de Sacaparte e ruínas do Convento dos Frades Agonizantes.

     Por fim, Alfaiates. Tudo o que disse sobre Castelo Bom e Vilar Maior se aplica, por maioria de razão, a Alfaiates. Não só pelo património edificado e que reclama alguma intervenção urgente, nomeadamente, no castelo, como pelo que passou por esta aldeia, que já foi sede de concelho, de História de Portugal e até antes de este o ser. Tantos e tão ricos episódios, sustentados e testemunhados por construções que teimosamente continuam a desafiar e a resistir ao tempo e à acção humana, exigem outro destaque, outro tratamento, outra promoção, porque, convençam-se, mais do que um castelo, é a história por trás dele que atrai o visitante e que faz perdurar aquele na memória deste.

     Ao lusco-fusco, percorremos as ruas e ruelas entre o castelo e a Igreja da Misericórdia, ambos velhos de quase mil anos. Entre um e outra, vestígios, mais modestos ou mais nobres, sussurram-nos histórias de outras épocas. Nós, respeitosamente, contemplamo-los, assim como nos contemplam os poucos habitantes que estranham a presença de um grupo de forasteiros interessados na sua terra, ainda mais pela hora tardia.

    Um jantar na rua, tentando libertar o calor que obstinadamente se nos tinha pegado ao corpo, prolongou o convívio de um dia bem desfrutado. Quem dera mais… dias bem desfrutados e grupos a jantar por aquelas bandas. Aqueles locais merecem.
Texto: Nuno Furet
Fotos: Vários autores
 
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