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Castelos na Planície

Todo-o-Terreno
AzimuTTe: Castelos na Planície

28/29 de Setembro de 2019

      Quando cruzamos o Alentejo, sobre a superfície negra a que chamamos asfalto, no conforto do ar condicionado, a uma velocidade razoável e deitando o ocasional olhar à paisagem que, frequentemente, temos como enfadonha e interminável, não tomamos verdadeiramente o pulso a essa grande província (sim, estou a juntar as duas numa). Como poderíamos, de estanques que vamos?

          Deixando o asfalto e embrenhando-nos pelos quilómetros e quilómetros de caminhos de terra, sem vivalma à vista que não por algum gado esparso, abrindo e fechando portadas que nada parecem conter, vidros abertos deixando caminho livre aos 33ºC que o termómetro denuncia, todo esse Alentejo, mais do que nos assaltar os sentidos, toma posse da nossa mente. A planície oprime-nos pela sua extensão e pela distância ao porto de abrigo que qualquer troço de alcatrão representa. Contudo, vencida a apreensão do isolamento, reparamos na beleza da ondulação suave da paisagem, na beleza de uns quantos sobreiros jogados ao acaso na suave encosta, na beleza do castanho da terra à forte luz do meio-dia e metamorfoseado em suave dourado ao sol poente. E quando logramos encontrar alguém, em cuja propriedade entrámos sem licença ou aviso, que nos recebe com toda a simpatia e disponibilidade, é com outros olhos e respeito que encaramos quem doma aquela imensidão.

          Esta é uma das três vertentes que calaram fundo na nossa mente e na nossa sensibilidade ao longo de um fim-de-semana pela planície alentejana.

          O Mármore de Estremoz, pese embora o tenhamos visitado nos concelhos de Borba e Vila Viçosa que não no do nome pelo qual é reconhecido, é a segunda. Tendo-as antecipadamente olhado do céu, por cortesia do Google, a extensão das suas pedreiras já não deveria surpreender quando nelas entramos. Porém e como se do mitológico Labirinto se tratasse, a quantidade de crateras, activas ou inactivas, quais chagas para sempre incicatrizáveis, parecem nascer por todo o lado e nunca acabar, ziguezagueando, por entre precipícios à esquerda e direita, o caminho de pó branco tão fino que paira no ar ao pousar de um pé. Mais, por oposição às crateras e a par destas, deparamos com altas escombreiras que nos limitam o horizonte, empolando a sensação labiríntica em que rodamos. Quando, finalmente, encontramos a saída, arrastando o véu branco que teimosamente se agarra à nossa esteira, já entendemos porque o mármore está omnipresente na construção autóctone.

         A terceira vertente é a histórica. Por um lado, vilas e aldeias carregadas de importâncias de outras eras que as suas ruas, ruelas e becos exibem como se de condecorações se tratassem. É preciso mais do que um olhar distraído para as reconhecer, mas, prestando-nos ao incómodo de ver, é toda uma outra dimensão que se desvenda e que nos deixa mais ricos espiritualmente. Por outro, os monumentos propriamente ditos e todo e qualquer um vale por si. A questão passa, no entanto, por lhes conhecer a História. A contextualização é tudo. Tudo passa a fazer sentido aos nossos olhos de leigos e ganha a verdadeira grandeza, que eventualmente a construção já sugeria, mas não explicita.

       Deveria falar-vos agora sobre o que visitámos. Não o farei, por longo que tantos foram, por difícil de lhes fazer justiça por palavras, por os sentimentos que despertaram serem pessoais, por ser redundante para os que estiveram presentes, por terem que ver com os seus próprios olhos e sensibilidade os outros que tenho a boa fortuna de estarem a ler estas linhas. Apenas uma palavra para a bela Olivença, onde chegámos já noite caída. Tal como a questão da soberania, também uma visita digna desse nome ficou pendente. Outro dia, talvez…

Texto e fotografias: Nuno Furet
 
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