A manhã começou bem nublada, à vista do Marco que assinala o Centro Geodésico de Portugal. De algum modo, a chuva miudinha que começou a cair acabou por nos distrair da paisagem circundante e fazer concentrar no Marco propriamente dito e na sua história. A visita ao adjacente Museu da Geodesia esclareceu as dúvidas que iam surgindo nas conversas e alargou o nosso entendimento do assunto.
Já na vila, uma curta caminhada levou-nos pelas antigas ruas, qual périplo por obras do Estado Novo, chafarizes, no presente caso, até à primitiva Igreja Matriz e ao Museu Municipal, versado na etnografia e com uma apresentação muito cuidada, ao nível do excelente espólio.
De volta às viaturas, por fechados vales e descarnados montes rolámos até às Conheiras. Estes extensos amontoados de pedras (conhos), são resultantes da exploração aurífera aluvionar das ribeiras afluentes do Zêzere, iniciada pelos romanos com mão-de-obra escrava, segundo se supõe. O volume e a quantidade destas conheiras, espalhadas um pouco por toda a parte nesta confluência de ribeiras, impressionam-nos pela dimensão do trabalho que representam. Este importante testemunho de outra era pareceu-nos, no entanto, algo ameaçado por terraplenagens para plantações de eucaliptos. Esperemos que os nossos piores receios não se confirmem.
A travessia da Ribeira de Cudegouzo marcou a aproximação à Praia Fluvial do Penedo Furado, local aprazado e aprazível para o almoço.
O percurso da tarde iniciou-se com paragens nos miradouros do Penedo Furado e Fragas do Rabadão, para grande deleite da nossa incansável busca por novos horizontes. No primeiro, foi necessário descer um pouco o monte para atravessar o Penedo Furado, o que ajudou à digestão de sobremaneira, pois tivemos que subir novamente e não parecia que tínhamos descido tanto (na verdade, não tínhamos, mas algum sedentarismo e o calor assim o aparentaram). No segundo, as estátuas dos santos intrigaram-nos quanto à sua acessibilidade para romarias ou, até mesmo, significado naqueles locais.
Estes momentos tiveram sequela na caminhada até à Cascata dos Poios, qual subida do Nilo, e na Cascata do Escalvadouro. Um dado curioso foi termos apreciado a primeira vendo a água cair lá de cima e a segunda vendo a água despenhar-se lá em baixo. As fortes chuvas das últimas semanas intensificavam os caudais e as nossas sensações, por arrasto. Momentos para perdurarem na memória de cada um, sem dúvida.
Um pouco pressionados pelo adiantado da hora, optámos por tomar a estrada para a ponte sobre o Zêzere e fazer um desvio não programado pela Capela de São Pedro do Castro, para desfrutar da panorâmica sobre o grande rio e verificar estas contradições, ou sãs convivências, de uma lápide romana dedicada a deuses pagãos afixada na parede exterior de um templo cristão.
De volta ao percurso original, bordejámos o Zêzere, subindo para norte até flectirmos para noroeste, na direcção do nosso destino final: Dornes.
Dornes, para a maioria de nós, encerra uma mística difícil de explicar com a razão, que não com o sentimento. Esta pequena vila, outrora alcandorada num estreito monte que se esticava vale dentro, encontra-se, agora, numa península, rasgando a albufeira. A visão que se nos deparou desde a franja do monte que percorríamos legitima essa mística. O sol poente, reflectido no espelho de água, emprestava a carga poética que cada um absorveu em silêncio e com emoção.
Já na vila, da sua torre templária pentagonal sentimo-nos como que na ponte de um navio, afrontando a massa de água e, do largo defronte, a conversa parece embalada pela suave ondulação. Caída a noite, para as bandas de leste, vencendo os montes, levantava-se uma lua cheia. Como é que não há-de ser um local místico?
Texto: Nuno Furet
Fotos: Vários autores