AzimuTTe: Gardunha
14 de Junho de 2014
Que dizer deste AzimuTTe: ‘Gardunha’? Melhor, que dizer desta Serra da Gardunha? Será que os que passam apressados na A23 suspeitam dos tesouros que esta Serra encerra, quando a atravessam, literalmente, pelo Túnel do Fundão? Será que adivinham que a paisagem que vêem é nada, quando comparada com a que se desfruta lá de cima? Nós não sabíamos.
Quando começámos a preparar este AzimuTTe tínhamos uma ideia relativamente precisa do que iríamos encontrar, em termos de património histórico e cultural. Quanto à paisagem, e sabendo um pouco de geografia, teria que ser excelente: ponto alto, planície da Beira Baixa, Cova da Beira. Mas, e ao vivo? Diz-se que uma imagem vale mil palavras e, por esse lado, estamos bem servidos. Porém, a questão não é essa; como descrever o que se sente quando se vê? Talvez o nosso comportamento, na altura, possa dar uma ideia. Começámos este AzimuTTe em São Vicente da Beira e apenas 3700 metros depois, após uma curva à esquerda que contornava a falda da Serra, já se espraiava na nossa frente a Beira Baixa, plana e longa como não a imaginávamos. Curva para dentro, curva para fora e novamente a barragem da Marateca a dominar o início desta Baixa Beira. Nova curva para dentro, nova curva para fora e ei-las outra vez. Curva não, curva sim, e nós sempre a fotografar, como se a vista fosse diferente da da curva anterior; lá, jurávamos que sim, tão deslumbrados íamos, de admiração sempre renovada. E assim seguimos até que a vista sobre Castelo Novo se intrometeu nas objectivas. Após a visita e na subida para o marco geodésico, lá seguíamos fotografando a Beira, agora com a Aldeia Histórica em primeiro plano. Quando chegámos ao cimo da cordilheira, avistámos finalmente a Cova da Beira, com a Estrela ainda com o pico nevado, e as objectivas viraram-se para Norte. Uma curva à direita, entre pedras, e novamente a Beira Baixa, com receio de ter sido esquecida. Entre pedras na curva à esquerda, e a Cova da Beira. Quão surreal pareceu aquele pequeno troço! No marco geodésico do Cavalinho, com a panorâmica de 360º, foi um deleite para a mente e as fotos não podem transmitir a sensação de estar naquele local, sentida cada qual por si, mas a todos atingindo. Que privilégio!
Voltando ao início, o ponto de encontro teve lugar em São Vicente da Beira, vila antiquíssima de foral de 1195. O seu centro histórico com o pelourinho de faces distintas, enquadrado pela igreja, pela casa do antigo Senado Municipal e pela fonte de origem tão remota quanto de formas tão conseguidas, colocou-nos, se preciso fosse, no estado de espírito adequado para este Passeio e as ruelas estreitas, de casas de idades seculares e brasonadas, não mais fizeram que reforçar o regresso ao passado.
Castelo Novo foi uma das oito aldeias originais incluídas no Programa de Aldeias Históricas. Isso, tão só, justificava a visita. Mas percorrer as suas ruelas, visitar as igrejas, castelo, museu e terminar no Chafariz de D. João V, perto da uma hora da tarde, sob um sol escaldante, logo, deserta de outra gente, dotou a visita de um dramatismo e uma solenidade que não se obtêm em visitas de grandes grupos e com tempo mais ameno.
Alpedrinha é uma jóia histórica que ficou separada da actualidade por um túnel que passa nas suas costas, mas mesmo quem a atravesse pela E.N. 18, se não souber o que lá pode encontrar, não parará, que a sinalética não é suficientemente apelativa na berma da estrada. Tem, no entanto, uma topografia cultural curiosa, se nos basearmos na nossa visita, que assim resultou, sem premeditação. Bas icamente, à medida que íamos subindo na vila, ia aumentando a importância e a espectacularidade dos monumentos. No entanto, saber o significado das coisas, como em tudo, ajuda à compreensão e a um outro posicionamento contemplativo. Assim, saber quem foi o Cardeal de Alpedrinha, D. Jorge da Costa, explica o seu brasão, a Capela do Leão, que, afinal, é de Santa Catarina e a razão da presença da Roda das Navalhas. Beneficiar da afável cordialidade da Liga dos Amigos de Alpedrinha, para a visita ao Museu Etnográfico, ou dos funcionários municipais para a visita ao Palácio do Picadeiro recorda-nos que ainda somos um povo que gosta de receber e que tem orgulho no seu passado, por mais incerto que se apresente o futuro. Desse passado orgulhoso, Alpedrinha conserva dois monumentos preciosos, situados lá em cima, onde acaba a vila: O Chafariz de D. João V (outro e que faz decrescer a consideração pelo de Castelo Novo, tal é o fausto deste) e a Calçada Romana que atravessa a serra. A extensão e o grau de conservação desta calçada, apesar de molestada de quando em vez, são absolutamente espantosos. Em boa hora optámos por, após traslado das viaturas, a subir a pé, ao longo de um quilómetro, para recuarmos mais no tempo e lhe tomarmos o pulso.
A descida da vertente norte, aliás, a descida à Cova da Beira levou-nos pelos javalis, mais um troço da calçada, desta vez feito nas viaturas, até ao vandalizado Convento de Santo António que espera agonizantemente que alguém lhe lance uma mão benemérita, que das outras já muito padeceu ele, para vergonha de todos.
Um agradável passeio pela zona histórica do Fundão ao fim do dia e uns quilos de cerejas nas malas das viaturas não impediram que do centro da Cova da Beira olhássemos lá para cima, para a Gardunha, e ainda sentíssemos o efeito da magnífica paisagem e dos seus tesouros ciosamente conservados.
Infelizmente, no regresso, coube-nos ter que alertar o 112 para um incêndio que começava a lavrar perto de Unhais da Serra. Vem-nos à memória o lindíssimo tema Ardenmius olhus, dos Trabalhadores do Comércio:
Num sei que pode passar pura testa
Du loucu q’atissa fôgo á fluresta!?...*
*Trabalhadores do Comércio, 2007, Ardenmius olhus, tema incluído no álbum Iblussom, edição de Tigres de Bengala, licenciado a Farol Música.
Texto: Nuno Furet
Fotos: Vários autores