Lourinhanosaurus - AzimuTTe Zero

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Lourinhanosaurus

Todo-o-Terreno
AzimuTTe: Lourinhanosaurus

27 de Outubro de 2018


    Couve coração, couve lombarda, couve portuguesa, espinafre, abóbora, alho francês, aipo, batata-doce e outras espécies, que os nossos leigos olhos não conseguiram identificar, não constituem o habitual e tradicional cenário de um passeio todo-o-terreno. Porém, foi mesmo assim, por terras do Oeste. Fomos passear pelas hortas que abastecem as nossas mesas. Mas, estou-me a adiantar.
     
     Recuemos, primeiro, ao início daquela ventosa manhã de sábado. Melhor, recuemos ainda um pouco mais, umas quantas centenas de milhões de anos, até à formação da Terra, até à deriva dos continentes, por aí, mais ano, menos ano. É essa a viagem que se faz, quando se atravessa a porta da entrada do Museu da Lourinhã. Uma vez lá dentro e quando tanto se recua, só sobra caminhar em frente, até a um passado mais recente, que alguns de nós ainda viveram (estaremos a ficar assim tão velhos?). Na verdade, a viagem, que se faz pelas mãos de um guia competente e comunicador, deixa-nos algo orgulhosos com a contribuição do Lourinhanosaurus antunesi para a ilustre galeria internacional de dinossauros e afins e, também, com o continuado trabalho de pesquisa no terreno que este Museu mantém. Num mundo tão recheado de réplicas para turistas, sabe bem ver a coisa autêntica. Que continuem o excelente trabalho!

     De volta ao presente, cá fora, o vento que, se não fosse português, poderia ter um nome repleto de evocações místicas e míticas, como Mistral, Scirocco, Khamsin, Bora ou Chinook, mas que designamos, algo rudemente, apenas como ‘Nortada’, obrigou-nos a conduzir à bolina, ziguezagueando por entre as vastas hortas, na direcção de Peniche.

      Aí chegados, as gaivotas em terra confirmavam o adágio popular e se os ‘carneiros’ no mar (aumentando o léxico das gentes do Interior, nomeadamente, de Pombal) nos impediram de navegar até à Berlenga, desafiámos a forte brisa e o pudor de alguns transeuntes, fazendo o nosso pic-nic bem no meio da principal artéria da localidade, sob o olhar atento e desconfiado dos fantasmas pidescos que teimam em povoar as guaritas do velho forte-prisão.

    Repostas as energias pela ingestão de tetra-tetra-tetra-tetra-netos de Pterodáctilos e Brontosaurus (visitar Museu da Lourinhã) e escudando-nos da corrente de ar pela vertente sul da antiga ilha de Peniche, tomámos de abordagem o Cabo Carvoeiro. Lá, a Nortada revelou-se com todo o seu fragor. Sem a sua violência amenizada por nomes rebuscados, as palavras, literalmente, levava-as o vento. Entre o silvo furioso das rajadas, o estrondo da massa de água contra a martirizada penedia que se tentava resguardar atrás da Nau dos Corvos e o duche salgado que nos toldava a visão, cada um interiorizou as suas emoções e não houve mão firme em máquina fotográfica que acertasse com a horizontalidade do horizonte.

    Pela costa e atravessámos para o Baleal, com a areia alfinetando as carroçarias. Nos parcos vestígios que subsistem do que foi, outrora, o seu forte e a um plano mais baixo que o do Cabo Carvoeiro, percebemos a ondulação de 4,70m que a previsão oficial prognosticava. Era o elemento que faltava para completar o quadro dramático que nos assaltava os sentidos. Quem visita este local durante uma agradável brisa de Verão, não lhe chega a tomar o pulso.

    Pisos rápidos facilitaram-nos a tomada de assalto do Castelo de Óbidos. Debalde. Gentes oriundas dos quatro cantos do Globo que vimos nascer de manhãzinha, dominavam já a Rua Direita por usucapião e foi como salmão contra a corrente que chegámos a um Museu Municipal que é reflexo desse domínio forasteiro: com os ocupantes ocupados nas recordações típicas de todo o país(?!), para quê investir seriamente no Museu? Os olhos do Beneficiado Faustino das Neves, de Josefa d’Óbidos, mereciam melhor e mais companhia, na parede e na sala.

    Tornou-se necessário fugir da corrente e deambular por ruelas, becos, escadarias e adarves para vislumbrar a autêntica e medieval Óbidos. A nossa decepção com o ambiente geral foi ressarcida, contudo, por uma peculiar procissão que abria caminho, a custo, pelo meio de hordas de telemóveis empunhados por mãos forasteiras. E peculiar, porque nunca nenhum de nós tinha assistido a tal função que fosse precedida por dois cavaleiros, com a Santa transportada num coche a tracção braçal e uma cantora lírica. Pode até nem ser raro, dirão alguns de vós, o que significará que temos que viajar mais, ainda. Que foi o que fizemos. Despedindo-nos de uns veados que velam pela muralha, descemos para o curioso e barroco (perdoem o quase pleonasmo) Santuário do Senhor da Pedra, aos pés de Óbidos. Estava fechado, sem espanto, porque, fora da época alta, não temos direito às mesmas horas de abertura. Deve haver um qualquer dogma que estipula isso, para prejuízo de todos, infelizmente.

    Começou a cair a chuva e recolhemo-nos ao restaurante.

    Na hora do regresso, olhando para cima, vendo a medieval vila iluminada, quase conseguimos esquecer quão ‘torta’ se encontra aquela Rua Direita.
Texto: Nuno Furet
Fotos: Nuno Furet, João Veríssimo e Paulo Lisboa

 
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