Monges e Moinhos - AzimuTTe Zero

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Monges e Moinhos

Todo-o-Terreno
AzimuTTe: Monges e Moinhos

30 de Junho de 2018

   De regresso a casa, depois de concluído este AzimuTTe e apesar da animada conversa com os meus passageiros, há uma sensação agridoce, que se plantou cedo no meu subconsciente, e que vai, lentamente, trepando até à superfície, até que não é mais possível ignorá-la. Assim foi, em retrospectiva, este passeio entre Lorvão e Anadia, com passagem por Penacova e Buçaco.

     Visitámos um Mosteiro, três Museus e um Núcleo Museológico, atravessámos frondosos vales e galgámos cumes de largas vistas. Motivos que sobejam para um dia bem passado entre boa gente, interessante e interessada.

     Os locais escolhidos não figuram nas listas especializadas de sítios ‘absolutamente imperdíveis’, tão em voga, como em voga se tornam esses locais for força dessas mesmas listas. Acontece, porém, que não apenas de grandes feitos é feita a História de um povo. Também com pequenos feitos se foi construindo este nosso Portugal. Vejamos, então…

    Começámos no Mosteiro do Lorvão, que não rivaliza, em procura, com outros congéneres, mas devia. A sua história, a sua dimensão, muito mais do que apenas física, o seu variado acervo, ainda extremamente rico e importante, embora já algo depauperado, conseguem surpreender até o visitante que sabia ao que ia. Conta, além disso, com um guia que fala do Mosteiro com conhecimento e paixão.

    A escassa meia dúzia de quilómetros, no Casal de Santo Amaro, situam-se os fornos onde se cozeu a pedra retirada das escarpas circundantes, para fazer a cal parda utilizada na construção do mosteiro. Entre as muitas ruínas e alguns recuperados, um Núcleo Museológico, pequeno e humilde, mas autêntico, com muita parafernália gasta do uso e sem os incontornáveis sistemas multimédia que grassam um pouco por todo o lado. A ajudar à autenticidade, a elucidação deste mester foi feita por Alice Henriques, que passou grande parte dos seus 80 anos a carregar feixes de lenha à cabeça, das matas não tão vizinhas, para alimentar as fornalhas, acesas até aos finais da década de 1970.

    Subindo do vale, encontrámos, alcandorado na verticalidade da falha do monte, o Penedo do Castro. Lá em baixo, a Penha na Cova parece uma barbacã, na defesa do Castro que nunca o foi, pois o topónimo do Penedo vem de uma pessoa e não de um castro que ali pudesse ter existido noutras eras.

    Descendo para Penacova, parámos no seu Miradouro e vimos a Moura Encantada, a tal serpente com duas cabeças que atraía os visitantes e os encantava para não mais partirem. Também nós caímos vítimas de tal encantamento, quebrado, porém, pela fome que já se fazia sentir e que nos levou à ermida da Nossa Senhora do Monte Alto.

      A penosa subida foi feita sob leve chuva que nos obrigou a comer no restaurante japonês local.

      Reconfortados os estômagos e para não aborrecer a digestão, seguimos um estradão até à Portela da Oliveira, onde se situa o Museu do Moinho Este é constituído por dois núcleos, o museu, propriamente dito, e o moinho que foi propriedade do escritor açoriano Vitorino Nemésio. Interessante, a disposição da exposição no museu, em curva, remetendo para o interior de um moinho. Apesar de alguns convertidos em alojamento rústico, ainda moem outros, nos cumes vizinhos, perpetuando a profissão. Depois dos Fornos da Cal, mais um afazer discreto e humilde, mas essencial em tempos idos.

     Pela crista da Serra do Buçaco, de largos horizontes toldados pelas nuvens que se adensavam, conseguimos chegar ao Museu Militar antes da chuva, que já nos esperava à saída. Visitar este museu dedicado à Batalha do Buçaco, para lá dos artefactos expostos, faz-nos tomar consciência do quão fácil levamos a vida. Tempos houve, realmente, em que o patriotismo e o sacrifício pessoal foram sinónimos. O documentado no museu foi um deles. Questiono-me sobre o verdadeiro valor das fátuas indignações por coisa nenhuma que pululam o nosso dia-a-dia. Será que estaríamos à altura dos nossos antepassados, surgisse a necessidade para tal?

     Serra abaixo, debaixo de chuva, pelo Luso, casas abandonadas, testemunhas de opulências passadas, e um virar à direita, para terra, atalhando para a Anadia. Porém, a chuva que caía complicou o troço (porque fui agendar este AzimuTTe para a época das monções?), pelo que, após algum tempo perdido, nos vimos forçados a tomar o percurso mais fácil para o Museu do Vinho Bairrada. ‘Quilómetros’ para trás tinham ficado os outros museus visitados. Neste, já o audiovisual marcava presença, felizmente, como complemento ao acervo e ao tema (pode parecer lógico, mas nem sempre acontece). Tendo como fio condutor os Percursos do Vinho, muitos dos artefactos expostos, entre o arqueológico e o tecnológico, surpreendem pela sua estranheza aos olhos do leigo. Curiosas, também, as alas dedicadas ao coleccionismo.

     O dia terminou como terminavam sempre as aventuras numa aldeia de uns irredutíveis gauleses: à volta da mesa, a saborear javali, perdão, leitão.

      Depois, sobreveio o tal amargo de boca, como quando estamos muito satisfeitos, mas há algo que está mal e se intromete na satisfação e pensamos: ‘Ah, pois…’

     Como é que é possível que as obras de arte, estatuária, pinturas, livros, do Mosteiro do Lorvão se encontrem em salas onde até nós sentimos a humidade nos ossos? Como é que é possível que numa dessas salas, uma das portas que dá para o exterior tenha frinchas de um centímetro? Como se conseguirão conservar tais obras em tais condições?

      O Núcleo Museológico nos Fornos da Cal está sob alçada do Centro Recreativo do Casal, que fez o restauro em 1997, com o apoio da Câmara. Contudo, sem prejuízo de uma procura mais atenta, não vi em lado algum indicação de horários ou contactos. Tive a sorte, durante os reconhecimentos, de pedir informações à única pessoa que encontrei, que me informou que fazia parte do Centro e se disponibilizou para tudo, inclusive, trazer a avó para explicar (os nossos agradecimentos a Tiago Henriques e Alice Silva Henriques). Mas, e se não o tenho encontrado? Ter-se-ia perdido a explicação na primeira pessoa. O que me leva mais longe, quando Alice Henriques já não puder explicar, será que os seus pormenores e experiência estão registados para memória futura?

     Quando seguimos a guia, do Museu até ao moinho do Vitorino Nemésio, fomos passando por vários moinhos restaurados de pedra à vista, pensando sempre qual deles seria o do grande escritor. Como anticlímax, surge-nos um meio restaurado a cimento. Segundo ela, o reboco teria sido feito há já muitos anos. Com a actual preocupação da preservação do património, a questão impõe-se: era originalmente com a pedra à vista ou revestido e a quê, então? No estado em que se encontra é que não era, com certeza, penso.

    Nestes tempos que correm, com tanta ênfase no acolhimento dos visitantes, porque é que o funcionário do Museu Militar do Buçaco, quando indagado sobre a visita guiada, disse que não, que era só entrar e ver, com um desprendimento que nos desarmou? Porque é que ligou o vídeo e se foi embora, sem reparar que tinha apenas som? Depois de chamado para reparar a anomalia, porque não nos disse que eram quatro filmes e tivemos que os descobrir e pôr nós?

     No Museu do Vinho Bairrada, a visita guiada precisava de noventa minutos, chegámos com quarenta. A guia disse que já não era possível e perguntou qual de nós é que pagava. Será que ela não é capaz de sintetizar a visita em 40 minutos?

    Já por várias vezes elogiei a dedicação das pessoas que nos recebem. Fica-me difícil fazê-lo nestes dois últimos casos.

    E assim foi, entre o muito aprendido e desfrutado e as questões no sapato.
Texto: Nuno Furet
Fotos: Nuno Furet, João Veríssimo, Clara Silva, Celeste Carrasco, António Marques e Jorge Ferreira

 
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