AzimuTTe: O Casulo
02 de Novembro de 2013
Fomos a Figueiró dos Vinhos em busca de José Malhoa e encontrámo-lo na companhia de Manuel Henrique Pinto, Simões de Almeida Tio e Simões de Almeida Sobrinho. Para nosso deleite, que quarteto!
Como dissemos na apresentação deste AzimuTTe, fazia já alguns anos que tencionávamos ir a casa de José Malhoa, mas esta encontrava-se encerrada para recuperação e pela construção do Museu e Centro de Artes. Agora, com tudo terminado, lá fomos, felizmente.
Visitar ‘O Casulo’, como Malhoa chamava à casa que projectou e construiu, é como entrar na intimidade do Mestre: imaginá-lo a pintar na pequena sala que usava como estúdio, percorrer os corredores e salas, os recantos das escadas e sótão, porque, quando se visita um local de algum modo histórico, não se olha para as coisas como quem vê uma montra de uma loja, há que ter uma predisposição mental para recuar no tempo até à época em causa e imaginar-se, e sentir-se, lá. Só assim entendemos as visitas que fazemos nos nossos AzimuTTes. O trabalho de recuperação que a Câmara Municipal fez na casa foi soberbo e em muito ajuda ao recuar no tempo. O Museu do Xadrez, na cave, foi outra feliz e conseguida ideia cuja visita se recomenda.
Já o Museu e Centro de Artes é absolutamente incontornável para quem visita Figueiró dos Vinhos e ‘O Casulo’, pois, nele, além de podermos contemplar as obras dos quatro artistas mencionados (motivo já por si suficiente), podemos testemunhar a cumplicidade que havia entre eles os quatro, o que só acrescenta aura à visita.
No entanto, esgotar a visita a Figueiró dos Vinhos no motivo Malhoa, seria cegueira histórica e desperdício da oportunidade de conhecer uma vila com um dos mais antigos forais nacionais (1204). Historicamente, Figueiró dos Vinhos tem na construção da sua Torre Comarcã o primeiro acto de afirmação do poder autárquico (os Homens Bons do Concelho, como se dizia na altura), num desafio ao poder senhorial, corria o ano de 1506. E tem muito mais: a Cruz de Ferro, a Fonte das Freiras, a Igreja Matriz, o magnífico Jardim e tudo isso nós vimos e visitámos no nosso périplo por ruas e ruelas. Como já acontece em muitas outras localidades, algumas das quais temos visitado nos nossos eventos, também Figueiró dos Vinhos se apresenta de cara lavada, o que é um regalo para os olhos e um suplemento vitamínico para o depauperado orgulho nacional.
Assim sendo, era quase meio-dia quando finalmente nos fizemos ao caminho, com paragens no Miradouro do Cabeço do Peão, encimado pela igreja de Santo António dos Milagres (em mau estado, eventualmente, porque é propriedade privada), no Miradouro da Ermida da Nossa Sra. da Penha de França (onde os templos dedicados ao culto de Baco, pela quantidade, ofuscam a pequena ermida) e o Miradouro das Fragas de S. Simão, que prima, não tanto pelos largos horizontes, mas pela vista vertical para a Ribeira de Alge que parece ter fendido as imponentes fragas.
Para o almoço, na praia fluvial das fragas de S. Simão, foi sempre a descer, seguido de uma caminhada por pontes e trilhos até à praia, propriamente dita, por um cenário natural de uma beleza exuberante, que foi devidamente apreciado, por ser Novembro e estar deserto, e que esperamos que as fotos lhe possam fazer justiça.
Iniciámos a tarde com a visita à Aldeia de S. Simão, mais uma que visitamos do Programa das Aldeias de Xisto e que, tal como a outras, se encontra reabilitada, apesar de, em conversa com um habitante autóctone (por oposição ao de fim-de-semana) nos termos apercebido que nem tudo vai bem no Reino da Dinamarca, ou seja, nem tudo é harmonia nas relações entre uns e outros e mais não aprofundamos.
Com as primeiras gotas de chuva, partimos para a Foz do Alge, atravessando e bordejando vales de uma beleza natural ímpar, dos quais as nossas fotos apenas dão uma pálida ideia, só ao vivo!
Já com o Zêzere à vista, descemos para a Foz da Ribeira de Alge, na qual repousam as ruínas da Ferraria, da qual saíram balas e canhões desde 1655 até 1759. Depois, foi retomada a actividade em 1802, com fins menos bélicos e sob a direcção de José Bonifácio de Andrade e Silva, futuro patriarca da independência do Brasil, até 1819. Gostaríamos, não de a ver a laborar, mas um pouco mais reabilitada, mais visitável (apesar de não nos termos acanhado), mais preservada, porque se arrisca a ir por água abaixo, literalmente, se nada for feito, e é única pecha que encontrámos neste concelho, não que seja, forçosamente, responsabilidade da autarquia. De quem quer que seja, que lhe atirem uma bóia de salvação.
Regressámos a Figueiró dos Vinhos, para a última visita do dia: ao Convento de Nossa Senhora do Carmo, onde a visita guiada nos inteirou da sua história e é pena que grande parte dele esteja em mãos privadas, privando-nos de desfrutar da sua grandeza original. No entanto, pudemos desfrutar da Mostra de Doçaria Conventual, que decorria intramuros do Convento e que nos deixou a boca adoçada para o jantar.
Por falar em visita guiada, queremos deixar aqui uma menção especial e agradecimento público aos funcionários do Turismo (dos quais, lamentavelmente, não registámos os nomes), pois fizemo-los começar a trabalhar antes da hora e para lá da que lhes era legalmente exigida. No entanto, a sua disponibilidade e amabilidade não conheceram limites o que não é frequente, embora comece a deixar de ser raro, se a experiência dos nossos AzimuTTes nos mostrou alguma coisa. A todos, o nosso bem-haja.
Para concluir e voltando a uma pausa num café, a meio da manhã, na visita à vila, dizia-me um participante: «Quem diria que Figueiró tinha tanto para ver.». Respondi que era verdade, mas que quase todas as terras têm mais para mostrar do que o que parece. Ao que ele retorquiu, que é preciso darmo-nos ao trabalho. Sim, mas, quando vencemos a inércia e nos damos ao trabalho, encontramos um país e um povo à nossa espera. Então, será que é verdadeiramente um trabalho?
Texto: Nuno Furet
Fotos: Vários autores