Pedra de Ançã - AzimuTTe Zero

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Pedra de Ançã

Todo-o-Terreno
AzimuTTe: Pedra de Ançã

25 de Março de 2017

       De quando em vez, somos bafejados por uma série de factores que se conjugam para criar um momento único, como se os astros se alinhassem e os deuses convocassem a terreiro vontades e paixões para tornar um dia de convívio e descoberta em algo dificilmente olvidável. Mas, estou-me a adiantar.

      Sábado, 09h da manhã, agreste. Afixada na parede, ao lado da porta fechada, a placa do horário de funcionamento do Museu da Pedra, em Cantanhede, reza, indiferente aos participantes que se entreolham, ‘Sábado e Domingo: 14,00h – 17,00h’. Um minuto depois, literalmente, corre o ferrolho e abre-se a porta. Entramos, sacudindo o desconforto da inclemência do tempo. Atrás de nós, o ferrolho corre novamente, agora, em sentido inverso. Começam a perceber o primeiro parágrafo?

         No planeamento e reconhecimentos para este AzimuTTe, contactei os responsáveis pelos locais a visitar e que me podiam permitir acesso e fornecer informações avalizadas e aprofundadas sobre a história do património que me propunha dar a conhecer aos participantes. Em todos eles encontrei uma disponibilidade que brota da paixão com que zelam pelo que está a seu cargo e do prazer, diria mesmo, orgulho, que têm em dar a conhecer o seu ‘quintal’ ao forasteiro interessado. Entusiasmante e encorajador para o sucesso do evento.

         Porém, no próprio dia, essas mesmas pessoas não se pouparam a esforços e incómodos para acrescentar o extra que já ninguém esperava nem exigia.

     Foi, assim, que, após travarmos conhecimento com a antiguidade e origens geológicas do Concelho de Cantanhede, nos foi comunicado que iríamos ter visita guiada a duas pedreiras da região: a primeira, de exploração industrial, no que parecia um cruzamento entre solo lunar e uma qualquer baía das Caraíbas, de tão verde a água da sua lagoa; a segunda, de exploração artesanal, onde nos foi possível encontrar mais facilmente fósseis de animais e vestígios da sua actividade gravados indelevelmente na rocha. O facto de, à última da hora se ter juntado a mim um amigo de longa data, geólogo, foi mais um dos factores que menciono no início e que transformou este AzimuTTe numa agradável aula de campo para gente de mente inquiridora.

       A sala de exposição das imensas potencialidades da Pedra de Ançã que é a Igreja do Mosteiro de São Marcos a todos deslumbrou: da arquitectura à decoração dos túmulos e retábulo, qual deles com mais detalhe, com mais beleza. Não tendo o público fácil acesso a esta pérola da escultura gótica e renascentista, sentimo-nos verdadeiramente privilegiados pela oportunidade e dedicado acolhimento.

        Oportunidade e dedicado acolhimento foram o que voltámos a ter, escassos quilómetros volvidos, quando nos esperava mais uma porta aberta, desta vez, no Convento de Nossa Senhora do Carmo de Tentúgal, da ordem das Carmelitas Calçadas, berço do famoso doce conventual que dá pelo nome de pastel de Tentúgal. E mais outra porta se abria, com a promessa de nos mostrarem como se fazem esses pastéis, após o nosso piquenique. A máxima de que o segredo está na massa nunca terá sido levada tão a sério e a tais extremos, como comprovámos, de touca enfiada na cabeça e nos pés (estas últimas teriam dado jeito quando deambulámos pelas pedreiras).

        E entrámos arrozais adentro, debaixo de chuva intensa, acompanhando um dos mais velhos cursos do Mondego (sim, que ele tem vários por estas bandas). Quilómetros e quilómetros de planura, canais, ribeiras e rios, pontilhados por cegonhas, milhafres, garças e que mais, a caminho do Castelo de Montemor-o-Velho.

         Voltando ao parágrafo inicial, o factor São Pedro também se manifestou, fazendo seguir a chuva e despontar o sol, quando atravessávamos a barbacã. Será que sabia que íamos apreciar a Senhora do Ó?

           Mais arrozais, mais um curso do Mondego abaixo e eis o Monte de Santa Olaia, com o seu importante povoado fenício da Idade do Ferro e posto a descoberto, explorado e estudado, nos finais do século XIX, pelo arqueólogo amador que foi António Santos Rocha.

           Este monte, encabeçado pela capela do século XVI e apenas a memória do castelo de Santa Olaia, guardião desaparecido da nossa primeira fronteira, situa-se dentro da extrema sul da Quinta de Fôja, cujo paul que a constitui foi doado por D. Afonso Henriques aos frades crúzios de Coimbra e comprado pela família Pinto Basto após a extinção das Ordens religiosas e que ainda a detém. Foi esta história de quase nove séculos que um portão nos franqueou, quando deslizou para o lado com lentidão solene.

            Acabámos como começámos, num museu, na Figueira da Foz, no Museu Municipal Santos Rocha. Não faria sentido visitar o Castro de Santa Olaia e não ir conhecer o espólio recolhido pelo insigne figueirense e que serve de base ao museu por ele fundado.

           Desta vez, não foi uma porta que se abriu fora de horas, mas uma que se manteve aberta para lá da hora, sem nos apressarem e sempre com um sorriso. Pois... ainda e sempre, o primeiro parágrafo.

         Pouco mais resta do que agradecer reconhecidamente (sem títulos académicos, porque o que está em causa são as pessoas) a atenção e dedicação de Carlos Gregório, Museu da Pedra; Pedreira do Arocal; Pedreira do Centro; Maria Marmé, Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra; Alice, Igreja de São Marcos; Margarida Cavaleiro, Confraria do Doce Conventual de Tentúgal/Café 'O Afonso'; António Lima, Quinta de Fôja; ramo da família Pinto Basto que permitiu a visita à Quinta de Fôja; Ana Ferreira, Museu Municipal Santos Rocha; Maria José Silva, Divisão da Cultura da Câmara Municipal da Figueira da Foz; e do incansável comunicador José Soares Pinto, geólogo e, sobretudo, grande amigo.
              A todos, um grande bem-haja!
Texto: Nuno Furet
Fotos (algumas tiradas durante os reconhecimentos): Nuno Furet, João Veríssimo, Clara Silva
 
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