AzimuTTe: Penedono
05 de Outubro de 2012
«Onde é que vocês descobriram isto?» - perguntava-me um participante e, por ‘isto’, referia-se a Moreira do Rei. «Nos livros de José Hermano Saraiva.» - respondi eu. É verdade, muitos dos nossos AzimuTTes foram inspirados pelos vários livros e programas de televisão que José Hermano Saraiva escreveu e apresentou até muito perto da sua morte. É em grande parte a ele que se deve o, atrevemo-nos a dizer, sucesso dos nossos eventos. Enfim, vocês dirão, mas se continuamos por cá, ao fim destes anos, não devemos estar a fazer um mau trabalho e o vosso encorajamento parece-nos sincero.
Mas voltemos a este AzimuTTe: Penedono. Podemos dizer que, sem ter pensado nisso, mas olhando em retrospectiva, é a nossa homenagem, tardia, a esse grande comunicador e devoto defensor do nosso Património (com letra maiúscula, que ele não fazia distinções de tipo). Quantas certeiras alfinetadas, que dizemos? punhaladas, ele deu nas instituições oficiais, pelo grau de incúria a que chegaram muitos dos nossos edifícios históricos. Quantos reparos atinados às desvairadas políticas que têm sido seguidas na educação, ordenamento do território e turismo, para o citar apenas parcialmente. Quase sempre em vão, que a qualidade dos nossos governantes, infelizmente, tem sido a que sabemos e está documentada.
Este percurso por terras da Beira permite-nos acalentar esperança de que melhores dias virão para a nossa memória histórica, pelos exemplos visitados, pois o cenário quase que até poderia ser perfeito, porquanto o esforço de recuperação tem sido bem sucedido, quase.
Começámos em Trancoso, classificada como Aldeia Histórica, o que, por si só, já avaliza o trabalho feito na recuperação da vila, apesar de termos encontrado algumas janelas abertas na muralha que não nos parece que fizessem parte do projecto inicial. Mas esta terra de Bandarra está muito simpática e o nosso passeio pelas suas ruas só poderá ter pecado por rápido, pois o dia ia ser longo.
A segunda paragem foi no ‘isto’, Moreira do Rei, à qual o nosso mentor chamou ‘sepulcro vazio’. Aqui, o progresso e a conservação passaram ao lado, lá em baixo: uma estrada inútil, construída literalmente ao lado da antiga. E como quem passa na estrada, raramente olha para o lado, perde esta jóia. É a sua igreja românica, é a sua necrópole, é o seu pelourinho, é o seu castelo de penedos graníticos, é a sua paisagem verdadeiramente deslumbrante, é a casa onde se alojou D. Sancho II, a caminho do exílio e, daí, esta Moreira ser do Rei. Motivos que sobejam e que justificavam uns cartazes de divulgação a dar utilidade à dita estrada.
Seguiu-se Marialva. Esta, o povo, quando a abandonou devido ao processo dos Távoras, encarregou-se de a deixar intacta e, à excepção do madeirame desfeito pela inclemência do tempo e umas quantas pedras caídas, está como sempre foi e é um retrocesso no tempo que nos arrepia cada vez que a visitamos.
A Longroiva só se devia poder chegar por fora de estrada, vindos do sul. É o seu lado mais bonito; darmos uma curva do caminho e depararmo-nos, sem aviso, com ela, do lado de lá do vale, alcandorada no seu morro, encimado pelo castelo templário. Não se encontra à venda este postal, pelo que tem que ser visto in loco. Este pequeno castelo (das primeiras torres de menagem no país) tem, desde há décadas, o cemitério instalado no seu pátio e, se não se nos afigura como a melhor localização para um cemitério, tem pelo menos o mérito de manter o castelo conservado e ao abrigo de vandalismo. Destaque ainda para ponte romana e a Fonte da Concelha.
Conduzindo na direcção do sol poente, oeste, para os que perderam o norte, chegámos a Mêda, que não tem castelo, mas tem uma torre de vigia, transformada em torre de relógio quando já nada havia para vigiar, muito curiosa; do lado poente, está quase ao nível do chão, mas para nascente, a vista é até onde ela mesma alcança e se baixarmos o olhar, temos aos nossos pés (enfim, bem mais abaixo), todo o centro histórico, com as nossas sombras recortadas sobre o casario.
Com o sol nos olhos, subimos ao Marco Geodésico de Sirigo, virámos à direita para o Menir de Penedono e entrámos, depois, na vila pela avenida principal, com o castelo do Magriço a barrar-nos a vista ao fundo. Este original castelo roqueiro impressiona em qualquer altura do dia, mas com o sol rasante a pincelar as suas muralhas de ouro e ocre, é absolutamente soberbo. Sentados lá em cima, na penedia da entrada, aquecidos pelos últimos raios de sol, gozando o panorama e entregando-nos ao ‘prazer que dá pelo nome de conversa’ (citando Carlos Tê), foi um momento como há poucos.
Mas o Município de Penedono não vive à sombra do seu castelo e pelourinho. Expõe pelas ruas instrumentos de tortura e máquinas de guerra medievais. Uma iniciativa que, se não soube, José Hermano Saraiva teria gostado de saber, pelo que representa na defesa e promoção do nosso Património e que deveria encontrar eco noutras paragens.
Apesar de já não estar entre nós, o seu legado não o deixa morrer e nós cá continuaremos a divulgá-lo, da nossa modesta e curiosa maneira, tentando não o desmerecer.
Por tudo, obrigado, Professor.
Texto: Nuno Furet
Fotos: Vários autores