Portas do Sol - AzimuTTe Zero

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Portas do Sol

Todo-o-Terreno
AzimuTTe: Portas do Sol

4 de Maio de 2019

    Na apresentação deste AzimuTTe, deixei-me levar nas asas de um nome: Portas do Sol. O plural fazendo toda a diferença para as ‘vulgares’ Porta do Sol, que encontramos um pouco por todos os castelos e que indicam, apenas, o nome de uma porta, normalmente, virada a sul. No entanto, porém, todavia (perdoem-me a redundância, mas já lá chego), o título poderia muito bem ter sido ‘Glória e Tragédia’, afinal tão estimulante para a imaginação e curiosidade como o outro.

   Santarém é uma cidade lindíssima para nos abandonarmos pelas suas antigas ruas e ruelas, sempre alerta para mais um pormenor arquitectónico ou episódio da nossa História. Encontra-se de cara muito bem lavada, somos bem recebidos sempre que cruzamos as portas de uma das suas inúmeras igrejas e a vista das Portas do Sol para a lezíria, com o Tejo espraiando-se pelos bancos de areia, é inolvidável. No entanto, porque não nos chega olhar para estes marcos de séculos da nossa memória enquanto nação, há que aprender sobre eles, contextualizá-los e, desse modo, entender a sua razão de ali estar, ou não. E é aqui que se levanta o véu que esconde a tragédia. Coube a Ramalho Ortigão servir-nos de cicerone dos desvarios sofridos pelos monumentos desta cidade, nomeadamente, nos séculos XVIII e XIX. É, então, com uma sensação de perda irreparável que olhamos para o espaço vazio onde, outrora, se erguia aos céus uma torre, onde num claustro lajes cobriam o piso, onde túmulos repousavam, onde…

    Atravessado o Tejo e com o primeiro contacto com os campos ribatejanos, se alcançou Alpiarça e a Casa dos Patudos. Residência particular do republicano José Relvas, agora Museu, respira e transpira a vida do seu proprietário original, no que foi o seu sucesso como empresário, estadista ao serviço da causa pública e amante da arte. Não pudemos deixar de fazer a ponte com o AzimuTTe: O Casulo (02-11-2013), por intermédio da presença nas paredes de várias e excelentes obras de Malhoa, amigo de José Relvas. Porém, apesar de todo o acervo reunido, de todo o bom gosto que exala da arquitectura e decoração da mansão, a tragédia familiar atingiu forte e profundamente este casal. Não entro aqui em pormenores, que os terão pela guia, acaso decidam seguir-nos os passos e fazer uma visita, mas deixa-nos a reflectir sobre o que pode ser a vida.
    
    Após o almoço no aprazível Parque de Merendas, junto à Vala de Alpiarça, embrenhámo-nos lezíria adentro. Uma experiência intensa pela extensa planura que atenua pontos de referência e nos deixa ‘perdidos’ no meio de plantações de vegetais incógnitos aos nosso leigos olhos.
  
   Assim chegámos à Golegã, à Casa-Estúdio Carlos Relvas, que há muito ansiávamos por incluir no nosso portefólio. A espera pelo fim das beneficiações de que a casa foi alvo, acabara. Para nós, amantes do património e história, em geral, e da fotografia, em particular, é um autêntico santuário no qual entramos com a reverência que se impõe. E não desilude, bem antes o oposto. Tropeçamos constantemente em magníficos e intricados detalhes que revelam o génio de Carlos Relvas. Ao seu nível, está a encenação do ‘próprio’. Parabéns à Câmara Municipal por tal feito. Todavia, todo o sucesso e engenho de Carlos Relvas, pai de José Relvas, não o protegeram do drama familiar, do qual ele foi principal argumentista e actor, nem tão pouco de uma morte prematura. Mais uma vez, ficamos entregues às nossas cogitações sobre o sentido da vida.

   Um pouco mais de lezíria até aos portões da oitocentista Quinta da Broa, para a visita à estrebaria de um dos maiores criadores do cavalo lusitano. A nossa guia desdobra-se em explicações e esclarecimentos das nossas dúvidas sobre tão especial labor com inexcedíveis boa vontade e simpatia, enquanto nos conduz por todos os recantos. Felizmente, por aqui, não foi necessário acrescentar um ‘contudo’ lá em cima, no primeiro parágrafo.

    Impressionados pela beleza daquelas magníficas montadas, calcorreámos ao acaso as ruas da Golegã, de algum modo já mais reconciliados com a vida e com uma nota positiva que emanava daquelas Portas do Sol Poente.

Texto: Nuno Furet
Fotos: Nuno Furet e João Veríssimo
 
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