AzimuTTe: Templários
03 de Outubro de 2015
Para simples pessoas como nós, amantes e até defensoras do nosso património, parte-se-nos a alma quando o vimos descurado e vandalizado. Por outro lado, não podemos deixar de sentir enorme satisfação e prazer, e confiança no futuro, quando deparamos com monumentos restaurados cuidadosa e minuciosamente. Felizmente, foi este o caso do património visitado neste AzimuTTe.
Umas quantas mãos-cheias de gente interessada em melhor conhecer a história do seu povo, do seu país, e voltar para casa com a alma reconfortada e enriquecida pelo que (re)descobriu e pelo convívio com outros que partilham a mesma paixão, reuniu-se na margem direita do rio Tejo, em frente ao Castelo de Almourol, para um dia passado sob a égide dos cavaleiros da Ordem do Templo.
A curta travessia de barco para a ilha onde Gualdim Pais decidiu erigir este castelo é mais do que suficiente para cortar a nossa relação com o mundano e fazer-nos entrar na mística templária. De resto, o próprio castelo, de típica concepção desta Ordem, agora limpo e restaurado, leva-nos, sem esforço, àqueles tempos conturbados, quando a nossa nacionalidade se definia à ponta de espada. Circulando cautelosamente pelos adarves, nós, como eles séculos atrás, perscrutamos o rio para montante e jusante e tentamos perceber se aquela construção na margem sul é amiga ou inimiga, e a ilusão perdura.
O barco traz-nos de volta à realidade e é animados pela visita que nos fazemos ao caminho na direcção de Tomar. Uns charcos de lama que persistem desde as últimas chuvadas e que traçam pinturas de guerra nas viaturas não nos demovem da nossa demanda pelos tesouros que a cidade do Nabão guarda ciosamente.
O primeiro desses tesouros, muito ignorado, a julgar pelo que presenciámos (almoçámos à sua sombra e, durante todo esse tempo, nem vivalma mais o desfrutou), é o magnífico aqueduto filipino, que, ao longo de seis quilómetros e desde o início do século XVII, levava água em abundância ao Convento de Cristo. O seu excelente estado de conservação e a possibilidade de nele podermos caminhar e apreciar a sua construção e detalhes técnicos, e a vista a trinta metros do solo, é uma experiência insuspeitada.
Estacionados em Tomar, iniciámos uma caminhada pelas suas ruas com destino à Sinagoga, que alberga o Museu Judaico, onde conhecemos outros significados. Daí, foi sempre a subir até ao Castelo Templário de Tomar, alguns com mais dificuldade, outros, nem tanta, e uns batoteiros que foram buscar a viatura.
Apreciadas mais algumas características da edificação templária patentes no castelo, entrámos, finalmente, no Convento de Cristo. A expectativa era enorme, pois tinha terminado um restauro que durara uns longos vinte e sete anos. Cada um terá sentido, à sua maneira, o peso de toda aquela carga simbólica que reveste a Charola. Tentámos imaginar o que representaria para os cavaleiros do Templo reunirem-se naquela igreja que emula o Santo Sepulcro e antes das alterações e decorações manuelinas, que lhe retiraram alguma sobriedade. Tarefa impossível, mas que provocou uma pausa silenciosa enquanto ‘víamos’ os cavaleiros ajoelhados, orando.
Mas o Convento de Cristo é isso mesmo: um convento, pelo que muito mais teve que ver, até como catálogo vivo que é da evolução arquitectónica, do românico ao gótico, ao manuelino, ao renascentista e assim melhor se compreende o que se nos depara.
Na descida para a cidade, tempo rápido para apreciar o exterior da renascentista Ermida da N. Sra. da Conceição, com as suas janelas perspectivadas.
Porém, o imprescindível vagar com que teve que ser feita a visita ao Convento levou a que a paragem na gótica Igreja de Santa Maria do Olival se convertesse apenas numa passagem, numa tentativa de chegar a Dornes antes do anoitecer. O caminho algo duro, logo lento, por mau piso e subidas difíceis, até à vista do rio Zêzere fez gorar esse intento. Foi já com as últimas claridades do dia que chegámos à Capela de S. Pedro de Castro, poiso curioso pela panorâmica que dele se desfruta e pelo pormenor de ter na sua fachada uma lápide romana de devoção a deuses pagãos, completando um périplo por várias religiões que também foi este AzimuTTe.
Caída a noite, seguimos por estrada até Dornes. A sua torre pentagonal templária, assente em base romana, estava sem iluminação e, sem esta, o Zêzere, logo ali, não passava de uma mancha escura. O quadro continha uma mensagem implícita: ‘se não me desfrutam em condições, não me desfrutam de todo’. A mensagem foi recebida e compreendida: um destes sábados, havemos de nos reunir e fazer o resto do percurso fora de estrada e chegar a Dornes como ela merece que lá cheguemos e, quando virem, perceberão o que quero dizer. O repto está lançado, qual demanda templária.
Texto: Nuno Furet
Fotos: Vários autores