AzimuTTe: Tua
14 de Julho de 2012
O rio ora preguiça ora se escoa apressado, ao capricho das altas escarpas que cingem e moldam o seu leito. Nós, nem uma coisa nem outra. Condicionados pelo calor, que até os pássaros silencia, cada um segue ao seu ritmo, entregue às suas próprias cogitações, que o cenário é propício.
A animação inicial de pisar os carris e a novidade de atravessar túneis com morcegos acusando a intrusão ficaram lá pelo terceiro quilómetro calcorreado. Agora, é o Tua que subtilmente se vai impondo e entranhando. A paisagem já não surpreende, antes se confirma a cada sinuosidade do rio sublinhada pelo duplo traço férreo. Cada altivo esporão rochoso, cada pedregulho escapado à escarpa, cada ravina transposta por emaranhado de vigas de ferro, cada cerro vencido por túnel, como que por batota, tudo se conjuga para nos impressionar e, sobretudo, marcar. É todo o Tua que sem reservas se expõe e nos acolhe. Uma refrescante brisa suaviza-nos os últimos quilómetros. Decididamente, este rio pensa em tudo.
Os escassos onze mil e quatrocentos metros percorridos, entre as estações de Tralhariz e de São Lourenço, não são suficientes para podermos afirmar sem presunção que ficámos a conhecer o rio, mas olhámo-lo nos olhos e ele ficou em nós. Daqui a uns anos, quando o tiverem finalmente domado e humilhado, poderemos dizer, não por gabarolice, mas por respeito e com saudade, que estivemos lá e ainda o vimos como ele era.
Texto: Nuno Furet
Fotos: Vários autores