AzimuTTe: Ucanha
16 de Outubro de 2010
O concelho de Tarouca é conhecido como Vale Encantado. Pois bem, mais do que encantado, encantou-nos. As vistas deslumbrantes que desfrutámos quando circulámos no cimo dos montes que o rodeiam e definem, complementadas pelos castanheiros que cobriam os caminhos com os seus ouriços e as vinhas que exibiam um matiz de amarelos, laranjas e castanhos realçados por um magnífico sol outonal, perduram mesmo nas memórias mais distraídas. E que dizer dos tesouros históricos que se aninham neste vale e que são defendidos e preservados por gente armada com pouco mais do que a sua paixão por estes testemunhos da nossa história?
Começámos por Salzedas, onde os autarcas locais atrasaram a colheita da maçã para nos darem as boas--vindas e ofertar lembranças da Freguesia (atitude rara, que muito nos lisonjeou e agradecemos) e pelo seu mosteiro, do início da nacionalidade e que se nos apresenta hoje em plena cura de rejuvenescimento, lenta, mas segura. A receber-nos estava o Padre Seixeira, grande responsável e impulsionador da recuperação não só física do edifício, mas também da sua memória. Na verdade, a sua demanda pelos documentos originais do mosteiro, que se encontram dispersos e perdidos no tempo, com o apoio da Câmara Municipal, tem sido coroada de êxito e é, a todos os títulos, louvável. Nós também ajudámos um pouco, uma vez que o número de visitantes é um dos critérios para que o Estado continue com o restauro.
Do mosteiro, atravessámos a rua e entrámos na Judiaria, que é o mais perto que conseguimos mergulhar na Idade Média sem efeitos especiais. Absolutamente única.
Seguiu-se a visita às Caves da Murganheira. Caves muito sui generis, porquanto foram cavadas na rocha, monte dentro, acabando nós por nos encontrarmos 60 metros abaixo da superfície. Após as explicações e a volta pelas instalações, fomos obsequiados com uma prova de espumantes orientada e animada por Alcino Moura, porta-estandarte da Confraria do Espumante e, provavelmente, o maior divulgador do Murganheira.
Foi já à saída das Caves que o Vice-Presidente da Câmara Municipal e Vereador do Pelouro da Cultura, Prof. Virgílio Ferreira, nos deu as boas-vindas ao concelho de Tarouca e nos dirigiu palavras de apreço pelo carácter cultural da nossa iniciativa e agradeceu por termos escolhido o seu concelho para visitarmos, tendo, ainda, distribuído lembranças pelos participantes. Agradecemos, mais uma vez sensibilizados, a receptividade e a sua presença, tanto mais que foi inédito no nosso historial. A partir daqui, o Prof. Virgílio acompanhou-nos na nossa viatura e pôde constatar por si o que é o nosso todo-o-terreno cultural.
De volta aos carros e partimos para Ucanha, onde chegámos descendo toda a medieval Rua Direita até desembocarmos na Torre. Agora, como poderemos descrever Ucanha a quem só ouviu falar dela ou a desconhece de todo? Como fazer jus à singular beleza desta Ponte-Torre e do seu espaço circundante? Difícil. Esperemos que as fotos, de algum modo, consigam.
Após um bucólico almoço, nas margens do rio Varosa, seguimos por uma calçada romana para a Casa do Paço de Dalvares, que foi originalmente a casa de Egas Moniz e que, actualmente, após excelentes obras de restauro, alberga o Museu e sede da Confraria do Espumante. Mais uma vez, Alcino Moura fez as honras da casa e terminou-se com mais uma prova.
Tinha chegado a hora de nos embrenharmos nos montes e assim fizemos, com alguns esquilos espantados pela nossa presença inesperada por aqueles bosques. Seguindo entre castanheiros e vinhas e atravessando ocasionais povoações, chegámos às ruínas da antiga igreja de Mondim de Cima, que data de antes da nacionalidade e custa ver tão coberta de silvas e mato.
Depois, foi a descida para S. João de Tarouca e para o seu mosteiro. O que mais impressiona neste é a dimensão e importância que as ruínas deixam adivinhar que ele teve, nos seus tempos áureos. Deambulando com cuidado pelo meio delas, no fim de uma solarenga tarde outonal, quase que ficamos à espera de ouvir o chamamento dos monges para as vésperas a ecoar no silêncio do vale. Já a Igreja ainda ostenta toda a sua grandiosidade. Tendo, como cicerone, António Caetano, pudemos observar com outra atenção alguns dos pormenores mais interessantes, como o magnífico quadro de S. Pedro, o painel de azulejos retratando a colocação da primeira pedra sob o olhar atento de D. Afonso Henriques e a própria primeira pedra, entre outros.
Com o sol já a fugir no horizonte, subimos à serra de Santa Helena, desfrutando as vistas para o vale e para o Marão, até chegarmos ao santuário. Daí, seguimos para o miradouro do Cristo-Rei e, depois, descemos para Tarouca.
Subimos à Alcácima mesmo a tempo de apanhar o último reflexo de sol no horizonte e foi já de noite que vagueámos pela zona histórica de Tarouca.
Um farto jantar de vitela e javali puseram um ponto final delicioso a este AzimuTTe.
Nota final – Muita gente, depois de visitar o nosso site ou conhecer o que fazemos, nos faz saber que acham os nossos Passeios muito interessantes e que no próximo irão, mas nunca vão. Até aí, tudo bem. Não levantamos, nem temos que levantar qualquer problema por isso. Agora, gostaríamos de lançar um repto a essas pessoas: peguem nas vossas viaturas, todo-o-terreno ou não, peguem na família, visitem o vale de Tarouca e deixem-se encantar!
Agradecimentos – Gostaríamos de deixar aqui expressos os nossos sinceros agradecimentos pelo acolhimento, disponibilidade e ajuda na realização deste AzimuTTe ao Vice-presidente da Câmara e Vereador do Pelouro da Cultura, Professor Virgílio Guilherme Ferreira, ao Porta-estandarte da Confraria do Espumante, Alcino Moura, ao Presidente da Junta de Freguesia de Granja Nova, Vasco Teixeira, ao Presidente da Junta de Freguesia de Salzedas, Jorge Ferreira e restantes membros, ao Padre Seixeira, ao Telmo Pereira e António Caetano.
Texto: Nuno Furet
Fotos: Vários autores