Às entranhas da Terra - AzimuTTe Zero

Todo-o-Terreno Cultural desde 2001
Go to content
AzimuTTe: Às entranhas da Terra

09/10 de Novembro de 2024

  O oceano nem bule, receando despertar as adormecidas águas da baía de Sines. Com o sol da manhã velado por um manto de nuvens retardatárias da borrasca da véspera, a cor destas afina com o tom do mar, tudo harmonizando, tudo serenando. Quase nos murmuramos, para não quebrar a paz. Encontramo-nos trinta metros mais acima, protegidos da brisa inexistente pelas muralhas do castelo e aos pés de um Vasco da Gama de bronze, que eterniza o olhar sonhador do grande navegador sobre o mar da sua vida. Tal como ele, também o nosso olhar se desafoga na imensidão líquida. Vinte e quatro horas mais tarde, estaremos trinta metros abaixo da superfície, no dédalo de galerias e túneis da mina de Aljustrel. Mas, adianto-me.
  Circundamos as muralhas e deparamos com uma fábrica romana de preparados de peixe (ficaremos a saber muito mais sobre esta actividade dentro de alguns minutos). A musealização do pequeno espaço foi muito bem conseguida. Aliás, a excelência da musealização parece uma imagem de marca do Município de Sines. Comprovamo-lo quando entramos no Museu, situado na restaurada alcáçova. Inspirada recuperação do edifício, quase não se notando a intervenção, excelente acervo, cuidadamente disposto e apresentado por um competente e empático guia. Numa sociedade cada vez mais submetida à tirania dos Códigos QR, dispensando as insubstituíveis visitas guiadas (mais sobre isto, mais à frente), começa a ser um luxo podermos desfrutar do conhecimento, cultura, disponibilidade e simpatia de um bom guia.
   Para mim, que só tinha estado em Sines há umas décadas e sem ter visitado o Centro Histórico (mea culpa), esta cidade não passava de um chão de tubagens várias e de um horizonte de chaminés fumegantes. Uma cidade industrial vivendo à sombra do seu porto. Quão errado estava! É tudo isso, mas foi e é, também, muito mais. O Museu ilustra soberbamente essa História e o guia cativa-nos para ela. Fica, entre muito mais, esclarecida a origem da Fábrica Romana de Preparados de Peixe. No piso nobre, é a Sines imediatamente anterior à chegada das tubagens e chaminés que nos é revelada. Alguns dos produtos expostos remetem-nos à nossa infância, reavivando memórias esquecidas, recordando-nos quanto já levamos de idade.
   Nas viaturas, acompanhamos as omnipresentes tubagens e chaminés industriais até nos embrenharmos por terra, melhor dito, por areia. Se há já quatro anos que não começávamos um AzimuTTe à beira-mar, passam vinte sobre os últimos pisos arenosos pisados. E lá vamos, afastando-nos do mar e atravessando herdades, almejando o Castelo de Santiago do Cacém, que observa, numa impassibilidade de morte, a nossa sinuosa, mas inevitável, progressão até ele.
  Vista de longe, a extensa cintura de muralhas, coroando o monte onde se enraizou, prometia muito mais do que vistas gloriosas, que as tem de sobra. Prometia um castelo com uma praça de armas ampla e alcáçova condizente. A heráldica sobrepujada na porta rasgada na muralha e a informação sobre a alcáçova num painel, ainda acalentam essa esperança. Debalde! Há mais de um século que o recinto do castelo é o cemitério da cidade e as ruínas da alcáçova encontram-se ultrajadas pela maquinaria e outro equipamento camarário depositados no seu interior, inacessíveis ao visitante. Assim, NÃO! Há que dignificar e honrar as ruínas! Se o cemitério, pelos seus jazigos centenários dos ilustres da terra, acaba por atenuar (se isso é possível) o choque, não a alcáçova. Repito, há que dignificar e honrar a história daquelas ruínas. Em todo o Concelho, não haverá um baldio para instalar o depósito municipal?
   A indignação é-nos suavizada pela visita ao jardim do Conde de Avillez, que nos remete, a uma escala menor e de modo curioso, para os jardins românticos de Sintra, e o amargo de boca pela degustação de deliciosos medronhos que colhemos na hora.
   Almoço no adro da Igreja de Santiago, onde os símbolos do Santo provam não sermos os primeiros a retemperar forças no local.
  Descemos do Castelo à cidade e subimos às Ruínas Romanas de Miróbriga. Depois de semanas a tentar contactar directamente, por telefone, o local, depois, a entidade gestora, em Évora, que, afinal, já não o é, tendo passado para outra (ambas estatais), em Lisboa, e tendo desembocado em trocas de mensagens por correio electrónico, fiquei a saber, através de um telefonema do telemóvel particular de uma funcionária, na véspera do Passeio, e confirmado no dia, já no local, que têm uma avaria na fibra óptica, que afecta os telefones e a máquina Multibanco; que são apenas dois funcionários e um se encontra de férias, pelo que não fazem visitas guiadas; mas que têm painéis informativos; e que têm um folheto com a planta, mas que não é gratuito. Também não têm artigos promocionais para venda, nem cafetaria (voltaremos a este tema). Tal como para a alcáçova anterior, há que dignificar o Património! Não podem passar semanas com avarias telefónicas; sítios oficiais na internet desactualizados; apenas com uma funcionária o dia inteiro, impedindo as visitas guiadas (e se aquelas ruínas o merecem); sem artigos promocionais para venda, como fonte de receita e, sobretudo, de divulgação; sem uma cafetaria, já não falo em restaurante, que cative e faça demorar os visitantes, com o respectivo aumento de receita. Organizacionalmente, muito mau! Como sítio (as ruínas), excelente! Mas mereciam mais. Muito mais e melhor.
  Seguimos, depois, por estes caminhos que tecem, como redes de malha larga, as ondulações do terreno, suaves que quase não chegam a ser montes e vales. Invade-nos aquela recorrente sensação de cada vez que cruzamos a planície alentejana longe da superfície negra: melhor reparamos no que nos rodeia e tentamos aquilatar o que representam aquelas duras vias de comunicação, de lazer para nós, vitais para os que vivem e trabalham a planície.
 E lá chegamos à Ponte Medieval de Alvalade. Outrora, igualmente vital; hoje, ligação entre nada e nenhures. Restam a sua ossada veneranda e as memórias que evoca.
  Memórias ainda mais recuadas evoca-nos o Museu de Arqueologia de Alvalade, que o Município de Santiago do Cacém teve a feliz ideia de fazer instalar nesta vila, descentralizando os pólos culturais, numa dessacralizada igreja, e que mimo é este Museu. O seu acervo e a sua apresentação rivalizam, melhor, complementam-se perfeitamente. Particular destaque para a recriação da primeira vida sedentária.
  Ala para Aljustrel, que o dia ameaça findar-se. Tentando desfrutar o máximo que nos for possível dos raios do astro-rei, subimos à Igreja da Nossa Senhora do Castelo. Cada qual ao seu ritmo, chegamos lá cima a tempo de ver a luz do dia escoar-se por trás das nuvens que desenham o horizonte. Aninhada em redor da colina que subimos, Aljustrel já vestiu o pijama e calçou as pantufas para a noite.
  Noite essa que ainda nos reserva iguarias de um pequeno restaurante, de uma pequena aldeia alentejana: filetes de peixe-galo, lombinhos com castanha e veado com romã. Que pena ser tão longe!
 O domingo amanhece luminoso e quente para a época, exactamente o que precisamos. Destino: Parque Mineiro de Aljustrel. É já munidos de lembranças do bem provido e variado inventário da loja (recado a Miróbriga) que envergamos o colete de alta-visibilidade e o necessário capacete para a visita. Começamos no Museu que ilustra a história e técnicas de exploração da mina com o passar dos milénios. Excelentes apresentação e animação. Muitos parabéns ao Parque Mineiro! Posso gastar adjectivos sem fim para o descrever, mas prefiro sugerir, com veemência, a quem eu tiver a sorte de ler este texto, e que não conheça o local, a visitá-lo.
  Um périplo pelo exterior, espreitando algumas das infra-estruturas, desde os romanos, antes de sermos engolidos por um elevador que nos deposita nas entranhas da terra, 30 metros mais abaixo. É todo um outro mundo que se nos revela e que a guia (recado a Miróbriga) nos vai desvelando, com competência e descontracção. Apesar de toda a história, factos e testemunhos da vida na mina que nos são relatados, nós, caminhando pelas galerias devidamente escoradas, iluminadas, limpas e silenciosas, deleitando-nos com as multicolores do minério, dificilmente conseguimos arranhar a superfície do que foi, e ainda é, trabalhar em tal ambiente. Apenas um pormenor nos transporta a essas condições primevas e é arrepiante: quando nos alçamos numa precária escada e espreitamos uma galeria romana, com não mais de um metro de diâmetro, que os mineiros (escravos) exploravam, deitados de costas, em cima das arestas vivas das pedras que lhes serviam de leito de trabalho.
  Regressamos à superfície e ao ar condicionado do Museu, águas, sumos ou cafés, das máquinas da cafetaria (recado a Miróbriga), deixam-nos recuperados para a última etapa do fim-de-semana.
 Messejana. Messe, quê? Perguntarão alguns dos que não estiveram presentes. Sim, Messejana. Hoje, uma pacata vila alentejana, embora a tenhamos encontrado particularmente animada, mas que teve um passado relevante, atestado pelas ruínas, ainda imponentes do Convento de São Francisco e pelos parcos subsistentes panos de muralha do seu castelo, que ainda revelam vistas de lonjuras inusitadas a quem a eles se arrimar. Um espelho da vida: importante, a espaços; votada ao esquecimento, nos interstícios.
  Foi com a mente a fervilhar da particular miscelânea de ambientes, percorridos e visitados neste AzimuTTe, que encetamos a viagem de cinco horas de regresso a casa.
    
Texto: Nuno Furet
 Fotografias: António Elísio, António Marques, Catarina Vale, Celeste Carrasco, Eduardo Antunes (vídeo), Clara Júlio, Clara Silva,
João Simões, João Veríssimo, Jorge Mota, Nuno Furet
AzimuTTe Zero - Aventura e Rumos 4x4 (Nuno Furet) é um Agente de Animação Turística e Turismo de Natureza (R.N.A.A.T. n.º 677/2018), que se dedica à organização de actividades culturais e recreativas, visando promover o conhecimento do património, seja ele histórico, natural ou cultural.
Enviar para trás