Luzes do Vigo - AzimuTTe Zero

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AzimuTTe: Luzes de Vigo

29/30 de Novembro / 1 de Dezembro de 2025

         Os leixões seguem impávidos e serenos, indiferentes à fúria das vagas e ao ímpeto das rajadas de vento que os açoitam e fustigam há milénios. Nós, nem tanto. Embora protegidos por forte parede das ondas que morrem na praia, o vento forte e gélido assobia-nos aos ouvidos e deixa-nos transidos de frio, enquanto a humidade nos empapa as roupas, os cabelos e os ossos. Olhando para cima, a 17m de altura, recortada num céu de chumbo prestes a desabar-nos em cima, uma intricada estrutura de 420t de ferro e 69m de comprimento, oprime-nos e fascina-nos. Trata-se de um dos dois Titans que residem no Porto de Leixões, desde 1885. Monstruosas gruas a carvão empregues na construção dos molhes que ladeiam e aquietam as águas do porto. Um tão primoroso quanto detalhado exercício de restauro permite-nos, agora, visitar a do molhe sul. Por entre rodas dentadas, cabos de aço, correntes, polias, comandos giratórios, ganchos, passadiços, escadas íngremes, buracos para o vazio e muito mais, percorrê-la é entender o seu funcionamento e o risco e a dureza do trabalho dos que as operavam. Na ponta da lança, o vento tornado ainda mais forte, gélido e sibilante pela altura a que nos encontramos, a adrenalina junta-se à festa dos sentidos que nos excita, empolga e, em certa medida, amedronta pelo respeito que a situação nos impõe. Olhando para oeste, oceano adentro, o edifício do Terminal de Cruzeiros de Matosinhos interrompe a linha do horizonte. É para lá que vamos.
         A espiral branca, sob a qual mergulhamos para estacionar as viaturas, nasceu do traço do arquitecto Luís Pedro Silva e toda ela exsuda mar e detalhes que só uma visita guiada pelo excelente guia residente nos desvela, permitindo-nos desfrutar a fundo tal obra: ele é o revestimento a azulejos hexagonais e tridimensionais, replicando escamas; ele é o desenho algo desfocado no chão e que revela toda a sua naturalidade quando se chega ao cimo da espiral interior; ele é a organização do movimento dos turistas no espaço interior; ele é o piso superior preparado para as mais variadas actividades empresariais; ele é o anfiteatro na cobertura, de belas e desafogadas vistas; ele é… tanto mais. Tudo de uma racionalidade, estética e qualidade raras em edifícios públicos, inclusive (embora, normalmente, não se fale de tal tema), os quartos de banho, para pessoas, não para gado, sem ofensa ao gado.
         O céu sempre se decide a cumprir a ameaça. Improvisamos parque de merendas na paragem coberta junto à portaria do porto, onde os turistas recém-desembarcados costumam aguardar transporte à descoberta do Norte do país.
         Sempre sob chuva e vento gélido, agasalhamo-nos com arneses para a segunda dose de adrenalina do dia: a subida ao arco oriental da Ponte da Arrábida. A elevada ingremidade inicial, vencida degrau a degrau, vai-se atenuando um pouco à medida que nos aproximamos do cimo, não que o notemos particularmente, pois os olhos vão-se enchendo da vista que se vai revelando a cada metro subido. Atingido o que seria a pedra de fecho do arco, fosse ele de silharia, podemos tocar a base do tabuleiro sobre o qual centenas de carros seguem para os seus destinos, alheios à nossa presença a escasso metro e pouco. Desfrutando da máxima perspectiva para ambos os lados da ponte, brindamos o feito e a amizade com Vinho do Porto em copos de chocolate (embora este vosso cronista se tenha recusado a adulterar o chocolate com o vinho). Depois, como tudo o que sobe, tem de descer, invertemos as posições e o sentido da marcha e, ingremidade abaixo, desta feita com o chão ao fundo dos olhos, um degrau após outro, lá pousamos pé em terra e começamos a libertar a tensão que, com maior ou menor grau de consciência, acumulámos.
       Toda essa tensão, mais a provocada pela chuva que redobrou de intensidade, encharcando-nos até alcançarmos as viaturas, só desapareceu completamente quando nos instalámos no eléctrico 143, de 1925, reservado para nós, para um passeio pela Baixa do Porto. Digam o que disserem sobre as comodidades actuais, como ares condicionados, suspensões pneumáticas, velocidades atingidas, mas os transportes públicos de hoje não chegam ao charme dos daquela época: o pormenor dos bancos, face a um pouco de espuma coberta a veludo barato e sujo; o requinte de puxar a correia que faz tilintar uma campainha para paragem, face ao botão. Os passageiros coevos, com certeza, sentiriam esse charme e mesmo com a lotação ultrapassada, a sardinha enlatada da altura nunca se sentiria, literalmente, atirada de um lado para o outro a cada curva por um condutor mais preocupado em cumprir horário do que no conforto e atenção ao passageiro.
         Regressado o 143 à Remise, visitamos os seus antepassados e contemporâneos no Museu do Carro Eléctrico, numa visita guiada pelo Barão da Trovisqueira, o cérebro por detrás da Companhia Carril Americano do Porto. Este Museu divide o seu acervo em três partes, não imediatamente óbvias. Primeiro, os eléctricos, claro. Somos conduzidos pela sua história, características individuais, inovações que introduziram e até conseguimos um retrato sociológico da época, com as informações sobre a utilização deste novel meio de transporte pelo povo, transmitidas pelo incansável Barão. Apreciando estas viaturas de outros séculos (voltamos à questão do charme do 143), onde tudo tinha de ser artístico, imbuído de uma aura de belo, não apenas funcional (reparem nos acabamentos estéticos, na decoração dos vidros, nos apoia-braços, e mais detalhes nas fotografias), acomete-nos a mesma sensação de quando olhamos carros clássicos: esteticamente, já não se fazem como antigamente. Segundo, a central eléctrica, que alimentava boa parte da rede, e os seus comandos. Que complicado deveria ser manter a atenção numa parede enorme forrada a mostradores e alavancas (descrição de um leigo), sem qualquer das luzinhas verdes ou vermelhas que encontramos hoje em dia. A terceira, e menos óbvia, é o edifício que alberga o Museu. Data de 1915 e era a antiga Central Termo-Eléctrica de Massarelos (ver, segundo). A arquitectura do ferro impera e envelopa lindamente a cenografia do espaço montada para receber tão valioso acervo (como se fosse a remise ao lado à qual regressou o nosso 143): o empedrado do piso; as vias-férreas; os postes originais das catenárias, tão ornamentados; os suportes dos candeeiros de parede; os relógios e demais mostradores; e, até, a pintura das paredes descascada aqui e ali. No fundo, uma visita vivamente recomendável a um património que não passa pela primeira opção, quando se planeia um dia fora.
         Domingo, oito da manhã. O céu limpou e o sol brilha atrás de nós, dourando-nos a vista para oeste, desde a sala do pequeno-almoço do hotel alcandorado no Monte de São Félix, em Laundos. Espraiamos os olhos, colina abaixo até ao oceano. Entre uma dentada no croissant e um gole de sumo, reparamos, para a esquerda no horizonte, ao longe, nas chaminés da refinaria de Matosinhos, à beira do porto onde começámos, ontem. Volvemos o olhar bem para a direita e a linha de costa incita-nos à viagem para norte, para Vigo. O nosso pequeno-almoço é em cinemascópio!
      Contudo, apontamos ao sol nascente e seguimos para a magnífica igreja de São Pedro de Rates. Esta é uma igreja que figura em todos os compêndios de História de Arte Portuguesa, no que a igrejas românicas concerne, como um dos exemplos mais notáveis. Porém, não vou entrar na história desta, antes contar outra história. Que motivação poderá ter um técnico municipal do turismo e património, numa iniciativa puramente pessoal, para abrir o seu local de trabalho, em dia de descanso, e propor-se, graciosamente, ensinar-nos esta igreja? Uma sentida paixão pelo que faz e pelo objecto do seu zelo: a Igreja de São Pedro de Rates, seguramente. O verbo ensinar não foi, aqui, empregue por acaso, pois tivemos uma verdadeira aula de história sobre este templo, incluindo a religião, a arquitectura, o significado da decoração religiosa e muito mais, que Vítor Azevedo a nada se poupou. E, no Núcleo Museológico da Igreja Românica de São Pedro de Rates, também aberto por sua mão só para nós, que privilégio apreciar a primeira estátua que se conhece de D. Afonso Henriques! Quantos municípios se poderão gabar de ter um técnico que faz das suas funções um caso pessoal, não olhando a horários, sempre que se lhe depara um grupo interessado no ‘seu quintal’? Bem haja, estimado Vítor!
     Retomamos, enfim, o azimute zero e só paramos no cimo do Monte de Santa Trega, já na Galiza. Empoleirados nas pedras do seu cume, rodamos o olhar e as objectivas das câmaras e telemóveis pela paisagem deslumbrante que se nos oferece em 360º. As rajadas de vento, tentando desequilibrar-nos, emprestam dramatismo ao momento. Vamos de admiração em admiração. Num momento, é o Rio Minho vindo de nascente, investido em linha fronteiriça. Noutro, é Caminha, logo ali, à distância do arremesso de um aceno que vença a largura do rio (já que um ferry-boat para automóveis deixou de o vencer há demasiados anos). Ainda noutro, é a costa portuguesa, para sul, com a ínsua, coroada pelo arruinado forte. E ainda mais noutro, a costa galega para norte, com A Guarda aos nossos pés, como que arrumadinha numa plataforma flutuante no oceano. E num último noutro, a encosta do monte até às terras planas para o interior. Com tais condições geográficas, não é de estranhar a presença de um castro, com ocupação tão antiga quanto o século VI a.C., e que visitamos na descida. Visto desde cima (uma perspectiva rara), assemelha-se a um conjunto de aros abandonados por crianças, quando chamadas a lanchar. Deambulando pelos seus caminhos (ainda não se pode falar, propriamente, de ruas), é enorme, denso e intrincado, atestando áureas épocas idas. Comparações com a Citânia de Briteiros e outros castros já visitados em AzimuTTes são inevitáveis, pois, a cada viagem, dados novos são relacionados com antigos, criando teias de conhecimento.
        Seguimos, bordejando o oceano e é com alguma tristeza que deitamos o olho ao Mosteiro de Santa María da Oia, plantado na praia como barco encalhado, e cujas obras de restauro nos impediram de visitar. Depois, sempre acompanhando a costa, começamos a subir a Ria de Vigo, à entrada da qual as Ilhas Cíes aparentam baluartes protegendo o acesso. Mais um pouco e é a Fortaleza de Baiona que se impõe aos nossos pára-brisas com a sua monumentalidade. Erigida numa pequena península (talvez melhor, no que poderia ter sido uma pequena ilha ligada a terra por um istmo), inteiramente rodeada por forte muralha, defendida por igualmente forte barbacã, do lado de terra, integra o Castelo de Monterreal e um paço, este convertido em Parador de Turismo. Todo o entorno se encontra exemplarmente cuidado e, percorrendo o caminho de ronda, descobrimos um caminho lindíssimo que rodeia todo o perímetro amuralhado entre este e a ria para fruição de locais e forasteiros. Que bela ideia tiveram, que belas passeatas não se farão em tão idílico cenário.
        De idílico nada teve a nossa triunfal entrada em Vigo. Desembocámos junto ao estádio de futebol, perto do início de um jogo da equipa local. Absoluto pandemónio, agravado pelo corte de ruas devido à época natalícia. Muitas voltas até vencermos a escassa distância até ao hotel. Tempo de um banho rápido e mergulhamos, a pé, nas iluminações de Natal de Vigo, objectivo último deste AzimuTTe. Tanta lâmpada (led, diz-se agora), compondo tantos enfeites, de cores em constante mutação, em tanta rua, faz-nos crer caídos num caleidoscópio do qual não vemos, nem queremos, saída. É absolutamente inebriante e a atmosfera é delirante em muitos aspectos: o colorido reflectido em rios de gente, onde cada um se sente salmão subindo a corrente; filas intermináveis para gozar das atracções disponíveis; outras filas tão grandes que nem se adivinha em que banca de comida elas começam; um assalto ao olfacto pelas iguarias disponíveis; tanto, tanto, mas tanto português. Contudo, não há caos, não há problemas, não há questiúnculas, não há exaltações. Há expressões de felicidade estampadas na cara de cada um. Afinal, não é essa a Magia do Natal? Mais, ainda, sob as Luzes de Vigo?

Texto: Nuno Furet
 Fotografias: António Marques, Catarina Vale, Celeste Carrasco, Eduardo Antunes, João Simões, Nuno Furet
AzimuTTe Zero - Aventura e Rumos 4x4 (Nuno Furet) é um Agente de Animação Turística e Turismo de Natureza (R.N.A.A.T. n.º 677/2018), que se dedica à organização de actividades culturais e recreativas, visando promover o conhecimento do património, seja ele histórico, natural ou cultural.
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