Olivença - AzimuTTe Zero

Todo-o-Terreno Cultural desde 2001
Go to content
AzimuTTe: Olivença
  
19/20 de Julho de 2025
  
     Estamos às portas de Elvas. Os raios de sol levam já um bom par de horas dissolvendo o fresco da noite das pedras do Aqueduto da Amoreira. As rajadas de vento entretêm-se jogando à apanhada por entre os inúmeros arcos. Nós, com a alegria do reencontro a ceder lugar à expectativa do que o dia nos reserva, abalançamo-nos planície alentejana adentro. Porém, é com alguma tristeza e apreensão por esta gente, que cedo testemunhamos o que uma notícia, apanhada do modo mais ocasional, na noite anterior, na televisão do quarto do hotel, relatou sobre a onda de assaltos à produção dos campos que grassa no Alentejo. Portões de herdades fechados a correntes e cadeados e, até, aplicações de arame farpado no topo de altos muros, aparentemente retiradas do manual de construção de penitenciárias. Contornadas estas, nas que se nos abrem e cruzamos, as suas gentes recebem-nos com gestos de saudação à nossa passagem em boa-fé.
    Emergimos do pó a escassos duzentos metros do Centro de Ciência do Café, na Delta, próximo de Campo Maior. Tenho bastante curiosidade quanto à visita e a maior reverência ao fundador, Rui Nabeiro, cuja ética pessoal e empresarial muito aprecio e tão em falta se encontra no actual mundo dos negócios e, até, na sociedade, de um modo geral. O acervo, que corria das estufas aos vídeos interactivos, das representações dos episódios da descoberta do café aos efeitos visuais com o Pessoa, do negócio da Delta desde os seus começos ao bar para prova do café, revelou-se extremamente interessante e instrutivo, documentando ambas as histórias, a do café e a da Delta. Do lado humano, particularizo o funcionário do bar encarregue de nos iniciar nos segredos da degustação: pleno de capacidade de comunicação, de conhecimento, distribuindo doses de boa disposição e simpatia com cada chávena fumegante do líquido negro.
      Avançamos para Campo Maior e descarregamos as hostes no Centro de Interpretação da Flor do Papel – Casa das Flores. Impõe-se uma pergunta sacramental: Qual o único povo do mundo, para não ir mais longe, que foi capaz de convencer a UNESCO a declarar Património Cultural Imaterial da Humanidade algo que só acontece quando o povo quer, povo esse que ainda não quis, desde essa declaração, em 2021? O povo português, claro! Soa a trafulhice, mas de modo algum. Na verdade, aqui, em Campo Maior, ainda ‘o povo é quem mais ordena’*. Ficamos cativados para as próximas Festas do Povo por uma guia proficiente e que fala com experiência própria. Afinal, quem é que não sabe de flores de papel, em Campo Maior? No cerne de tudo isto está um simples grão-de-bico carinhosamente envolto em delicadas pétalas de papel-de-seda. Instruídos por hábeis mãos de artesãs locais (novamente, podia ser qualquer pessoa em Campo Maior), abalançamo-nos ao ‘cultivo’ das nossas primeiras flores e, à parte a nossa inexperiência que atrapalha a produção, é fácil entender a dimensão da tarefa que espera este Povo, quando decide realizar as suas Festas. Só podem mesmo acontecer pela conjugação do ânimo das gentes, jamais por decreto.
       Coabitando o mesmo espaço, encontramos o Museu Aberto, simpática Mostra Etnográfica das gentes de Campo Maior, aperitivo para o que visitaremos no dia seguinte.
      Lá fora, as venerandas muralhas do castelo, de ar curtido por sóis sem conta, põem-se em bicos dos pés, esticando a sombra sobre as nossas vitualhas, permitindo-nos iludir a canícula que nos rodeia.
       O Castelo e a Fortaleza Abaluartada surpreendem-nos de dois modos: pela qualidade, rigor e planeamento do restauro; e pela simpatia, paixão, empatia e conhecimento do nosso jovem guia. (Abro, literalmente, um parêntesis para este caso: obviamente, quisemos conhecer melhor o percurso deste jovem apaixonado pelo seu trabalho e ele falou, generosa e, com toda a propriedade, orgulhosamente. Saído do curso de Turismo, de uma Escola Profissional, consegue emprego no Município de Campo Maior. Actualmente, é trabalhador-estudante na Universidade de Évora, trabalhando no Município eborense, por empréstimo do Edil campomaiorense, de modo a facilitar-lhe a formação, e, aos fins-de-semana, ainda se entretém a guiar-nos e a outros como nós, pelos meandros da história do Castelo de Campo Maior. Todos os envolvidos neste episódio deveriam ser exemplos a seguir.)
       Regressando à visita à Fortaleza, esta exibe, numa das suas dependências, uma exposição temporária, que se tornou perene, sobre o seu processo de restauro. Não o faz por uma questão de vaidade ou orgulho, antes por utilidade informativa. Na verdade, é vital para o visitante entender o que estava e em que estado, como se processou o restauro, as suas fontes documentais, as alterações sociais que implicou. As mais das vezes, limitam-se à incontornável lápide com os montantes envolvidos, as entidades financiadoras e o nome da individualidade que a inaugurou. Parabéns, a todos os títulos, Campo Maior!
       O calor leva-nos, a toque-de-caixa, rua abaixo, até à Capela dos Ossos. Reza a tradição que o tão magnífico quanto macabro acervo desta capela, de circa 1766, terá sido ‘doado’ pelas vítimas da explosão do paiol do castelo, provocada por um raio, durante uma tempestade, em 1732. O facto de se apresentarem inteiriços e não fracturados aos olhos dos historiadores e, mais leigamente, aos nossos, aponta a origem destes ossos para uma qualquer intervenção ocorrida no adro da igreja, antigo local de enterramento. Esta última interpretação, contudo, resulta demasiado prosaica, a primeira é muito mais romântica, melhor servindo a aura da capela e é com ela que eu me fico.
        Ao lado, a Igreja Matriz, séculos XVI/XVII, prima por alguma sobriedade, se isso é possível numa construção barroca. Esta igreja-salão não se encheu de talha dourada, tão querida a esta corrente. Antes parece uma fotografia a preto e branco, fruto dos mármores empregues. Uma beleza discreta, convidando ao recolhimento, numa primeira fase, e que se deixa desfrutar sem resistência ao olhar mais atento, em seguida.
    Deixando para trás as mulheres e crianças, os homens acometem a subida ao castelo, para recuperar as viaturas. Penosa, mas denodadamente, vão levando de vencida o ar quente e abafado que lhes vende caro a derrota.
      Reagrupados, seguimos, bordejando campos até Ouguela. Estacionamos na beira da estrada e cruzamos as portas em ângulo da muralha em bicos dos pés, para não acordar a vila completamente adormecida. Bem restaurada a fortaleza, castelo e dependências, tudo se encontra encerrado. Dois pachorrentos cães, estirados no meio da praça, levantam a cabeça, mas não mais do que isso, curiosos à nossa chegada. Percorremos adarves, subimos a torres, fotografamos distâncias e detalhes e partimos como chegámos, sem ver vivalma.
     O domingo amanhece cinzento, o que é óptimo para inibir o calor que receávamos. São nove da manhã e deambulamos pelas ruas do centro histórico de Badajoz. Podia ser Ouguela, menos os cães e mais três funcionários dos serviços de limpeza. Não se vê mais vivalma. Parece uma cidade-fantasma, cenário erigido para película cinematográfica histórica. Antes assim, temos as ruas, a catedral e a fortaleza só para nós. Nesta última aloja-se o Museo Arqueológico Provincial de Badajoz de riquíssimo acervo pré-histórico, que complementa e aprofunda o do Museu de Escrita do Sudoeste de Almodôvar, visitado noutro AzimuTTe. Confesso que me emociono frente às estelas com guerreiros, carroças e animais desenhados há milhares de anos. As representações do que as coisas têm e não como se vêem, e que encontram paralelo, nos nossos dias, nos desenhos das crianças, embora tenham sido executados por adultos, algo diz dos mecanismos mentais da época, o que torna todo o trabalho ainda mais empolgante e extraordinário. Ingénua e singela beleza que nos chega dos primórdios da humanidade.
     Um estradão de vinte e poucos quilómetros e pó fácil deposita-nos às portas de Olivença. Impedidos de repetir a entrada na cidade pela monumental Puerta del Calvario, rasgada na muralha Vasco da Gama, como fizemos em 2019, por ser agora de passagem pedonal, rodeamos a cidade e buscamos o interior da mencionada Porta, para repetir o caminho original. Diz o adágio que não há duas sem três. Bastou-nos a segunda. Desta feita, conseguimos visitar a nossa Olivença sem mais constrangimentos.
    Um busto recentíssimo de Camões aguarda-nos à entrada do recinto amuralhado, proclamando o poeta como a proa da língua portuguesa. Passando ao lado da ironia do local onde se encontra, tanto que este epitáfio dá que pensar, tantas ramificações, tantas implicações, nestes tempos em que essa língua, em solo pátrio, se vai degenerando, se vai abastardando, com graves sintomas de irreversibilidade. Que grande rombo leva essa proa!
     Olivença pasma-nos pelo valor e respeito à herança lusa: os hodónimos registam o actual nome espanhol e o antigo português: ‘Paseo de Pizarro / Antigo Largo do Calvário’, por exemplo. Mais nos pasma a Igreja de Santa Maria do Castelo (séc. XIII, reconstruída no séc. XVI), integralmente de requintada fábrica lusa, exibindo um magnífico quão inusitado retábulo representando a Árvore de Jessé. O pasmo maior, no entanto, vai para o castelo de D. Dinis e, em particular, a torre de D. João II: acede-se ao alto dos seus trinta e cinco metros por rampas embutidas na espessura das paredes, permitindo a subida da artilharia, e com as janelas exteriores concertadas com as interiores para fazer chegar luz natural aos salões. De pasmar!
    Já o Paço do castelo abriga o melhor museu etnográfico que me foi dado visitar. De um acervo completíssimo e minucioso, extremamente bem apresentado e complementado (para quem o decida comprar, aliás, por módica quantia) por um ainda mais didáctico guia. Algumas das peças expostas são nossas (dos mais velhos) contemporâneas, induzindo viagens deliciosas à meninice.
    Mal passada a fronteira, no regresso a casa, improvisamos restaurante ‘À sombra duma azinheira, Que já não sabia a idade’*, deitando vista para as ruínas da Ponte da Ajuda e Espanha ao fundo, e olhamos, já com memórias, para lá, para trás, para o belo fim-de-semana de descobertas prestes a terminar.

*AFONSO, José (1971), Grândola, vila Morena, Lisboa, Discos Orfeu.

Texto: Nuno Furet
 Fotografias: António Elísio, António Marques, Catarina Vale, Celeste Carrasco, Clara Júlio, Clara Silva, João Veríssimo, Jorge Mota, Nuno Furet
AzimuTTe Zero - Aventura e Rumos 4x4 (Nuno Furet) é um Agente de Animação Turística e Turismo de Natureza (R.N.A.A.T. n.º 677/2018), que se dedica à organização de actividades culturais e recreativas, visando promover o conhecimento do património, seja ele histórico, natural ou cultural.
Enviar para trás