Terras do Demo - AzimuTTe Zero

Todo-o-Terreno Cultural desde 2001
Go to content
AzimuTTe: Terras do Demo
  
01/02 de Março de 2025
  
      A manhã já quase se extinguiu no ora lento, ora rápido correr das horas. Rumamos a Carregal, navegando na Serra da Lapa. Tufos de giestas, embora parecendo borbotos em camisola velha, amaciam a aspereza da paisagem de pedra nua que nos rodeia. Nos momentos de silêncio, mais curtos ou longos, como no Código Morse, entre as conversas que mantemos dentro do carro, a minha mente vai discorrendo sobre o fim-de-semana que estamos a desfrutar, com a vantagem sobre os restantes participantes de eu conhecer por onde vamos passar. O título de um livro trepa-me à memória: ‘A tale of two cities’. Voltarei a este tópico.
     A manhã começou bem cedo, à hora a que começam as manhãs, e o nosso Passeio pouco depois. Estacionamos na Praça da República, em Sernancelhe, onde a Igreja Matriz, Pelourinho e Solar da Comenda de Malta, símbolos do clero, povo e nobreza medievais, contrariando a toponímia da Praça, nos lançam um olhar inquiridor, não de receio, mais de curiosidade. Deambulamos por eles. A Igreja exala antiguidade. Pequenas estatuetas, encastradas na parede frontal, emolduram o portal que exibe, a outra cor, vaidosamente, o seu tímpano de fábrica mais recente e, suspensas dos cachorros, uma mulher grávida segura o ventre e outra dá à luz. O Pelourinho quinhentista, de gaiola recortando-se nas nuvens, conversa com uma velha marquise beirã apoiada em muletas e vestida de lousa. Já o Solar da Comenda de Malta prima pela discrição.
      Subimos uma escadaria recta, como se rumo ao Céu, até aos pés de uma Nossa Senhora que nos aponta os quatro cantos do concelho. A proteger-lhe as costas do vento norte só conta com o pano restante da muralha do castelo. Depois de o rodear pelos montes que delimitam os horizontes, deixamos cair o olhar para o lado da Vila, onde sobressai, mais que a igreja, uma coluna de fumo espreguiçando-se no ar gélido, fazendo-nos desejar estar ao cantinho daquela lareira.
     Transferimo-nos para o calor da recepção de que somos alvo no Espaço da Castanha e do Castanheiro, aberto mais cedo a nosso pedido (há guias assim). O nome não deixa dúvidas sobre ao que vamos, mas o acervo surpreende-nos muito positivamente. A visita guiada elucida-nos, ainda, sobre o dinamismo do Concelho, sem palavras vãs. As absolutamente deliciosas e variadas iguarias locais que nos ofertam repõem-nos as forças, pois o farto pequeno-almoço do hotel tinha já ficado na subida ao castelo. Para as bagageiras das viaturas transitam várias caixas de pastéis folhados de castanha. Como não?
     Embrenhamo-nos, agora, num vasto souto onde os castanheiros, alguns centenários, emaranham os braços esqueléticos e nus, agasalhados com líquenes, coarctando-nos a lonjura. Juntamente com os vetustos muros de pedra forrada a musgo verde que roça o amarelo alaranjado a espaços, definindo o caminho lajeado, este souto, digno de um livro do Tolkien, emana magia.
       Essa magia embrulha o conhecimento, dedicação e amor (sim, também) para a Castanha Martaínha brotar sã e saborosa destas árvores, na Quinta da Seara, onde somos gentilmente e com genuína disponibilidade recebidos. Após a visita e elucidados, mal podemos aguardar o próximo Outono.
       Escassos quilómetros depois e uma enorme cruz de pedra, plantada no meio do caminho, ora por manter harmoniosas e dignas as ruínas do Mosteiro da Ribeira. Infelizmente, estas já requerem esforço para imaginar o que foi pelo que resta. Receio que orações não sejam suficientes. Há dores de alma assim.
      Em Granjal, por outro lado, um pequeno imóvel de antanho, construído com técnicas há muito abandonadas, oferece um contraste de sortes com o Mosteiro anterior.
       Rumamos a Carregal, navegando na Serra da Lapa, (…). Chegámos ao ponto do início desta crónica e …, salto à frente.
      Uma capela, antiga de séculos, sorri-nos à passagem por Forca, como que sancionando o nosso Passeio, e, em um nada, estamos em Carregal, no Pátio dos Sanhudos, local de nascimento de Aquilino Ribeiro. Começa a nossa Via Aquilina. Porque o aprecio imenso como escritor e pessoa, estar onde ele nasceu e brincou constitui um momento importante para mim e é com alguma emoção, que penso não deixar transparecer, que leio para todos o início de Cinco réis de gente, onde ele relembra e descreve este local.
       Ainda em menos de um nada, e já circulamos nas ruas de Tabosa do Carregal e o Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção nos enche os pára-brisas. Sob os olhares orgulhosos do Presidente da Junta de Freguesia de Carregal, que fez questão em nos receber pessoalmente, e do zelador do Mosteiro, por o seu ‘menino’ ser alvo da visita de forasteiros de longínquas terras, o Técnico do Turismo de Sernancelhe guia-nos pela história deste magnífico edifício religioso. Competência e empatia de sobra, apesar de ser a primeira vez que o faz (ao Mosteiro, quero dizer), que aquelas imponentes ruínas e igreja bem o merecem. Pinceladas descuidadas de cinzento e verde cobrem a tela que o nosso olhar emoldura e fomentam uma reverência profunda. Que recolhimento não proporciona, agora, o silêncio que se desprende daquelas paredes. Que cenário fantástico!
     De volta à realidade e à conquista dos cimos da Serra da Lapa. Caminhos descarnados por anteriores torrentes de chuva, que se despenharam do céu encosta abaixo, dificultam-nos a progressão e requerem uma atenção especial. Um troço ainda mais lento, permite-nos olhar no retrovisor e ver, no vale, ao fundo, o espelho de água do Távora tolhido pela Barragem de Vilar.
     Na Vila da Lapa, postado que está ao fim de uma longa recta, o seu Santuário não se esconde e o vento frio empurra-nos para ele, embora seja desnecessário, pois vontade de o visitar já nós levamos. Isso sim, necessário é encontrar abrigo dele para o almoço volante. Vale-nos o guia do Mosteiro, que será, também, o nosso guia para as preciosidades que esta pequena vila alberga, facultando-nos, por sua iniciativa, o acesso à Casa das Novenas (há guias assim).
     E, assim, depois de reconfortados com as vitualhas partilhadas, somos guiados pelo museu e igreja do Santuário. É a terceira vez que estou neste pluricentenário local de romaria, sempre em AzimuTTes, mas é a primeira que dispomos de guia. Que diferença! O museu exibe, entre outro acervo importante, uma colecção de pinturas de ex-votos candidamente enternecedoras. Quanto à igreja, como se não fosse já suficientemente insólito e curioso ela abrigar uma lapa, a temática dos altares junta o adjectivo incomum aos dois anteriores. Juntemos um crocodilo e uma passagem entre rochas que avalia o peso nas consciências e dificilmente encontraremos igreja mais bizarra. Tão espantados voltamos ao vento frio que nem prestamos atenção ao contíguo colégio de fundação jesuíta que Aquilino frequentou na sua juventude e vamos percorrendo as ruas e ruelas que ele calcorreou até desaguarmos na nascente do Vouga.
      E do Vouga passamos ao Paiva, a caminho de Soutosa (Seitosa se chamava, em 1919, quando Aquilino escreveu Terras do Demo), para invadirmos a privacidade do escritor, entrando, com respeito e modos, saliente-se, na sua casa. Pessoalmente e, de algum modo, contrariamente ao que esperava, a excitação de poder ver o sítio onde Aquilino viveu e escreveu os livros que me encantam e ensinam, seguindo no final do grupo, vai dando lugar a como que um sentimento de devassa da vida de alguém. Não se trata de um palácio, onde tudo é mais impessoal. Trata-se de uma normal casa de quinta, na qual todo o pormenor da vida privada ganha maior dimensão e exposição. A mesa das refeições é apenas suficiente para a família, não para receber cinquenta convivas. Foi ali que ele se sentou e comeu. Dormiu naquele quarto sem grandes luxos. No pequeno, mas confortável escritório, foi àquela secretária que ele se sentou e escreveu. Um exemplar aberto do seu primeiro romance, A via sinuosa (1918), exibe uma dedicatória manuscrita à sua mulher, Grete. Ao contrário das dedicatórias impressas nos livros, públicas, portanto, esta é do mais pessoal que pode haver e no seu primeiro romance, repito. Vê-la, ali, exposta, embora compreenda o valor histórico, o pudor impede-me de a fotografar e guardo-a apenas na memória.
       À terceira é de vez, como diz o adágio. Depois de passarmos duas vezes o Paiva por pontes anódinas, à saída de uma curva no caminho, deparamos com uma rampa em pedras largas e irregulares, embora amaciadas por séculos de passagens sobre elas. A frente do carro aponta ao céu e só voltamos a ver terra quando atingimos o tabuleiro sem guardas. Corrigimos a direcção e preparamo-nos para a descida da rampa oposta. Com as rodas já em terra e aproveitando a curva desflorestada do caminho, rodamos a cabeça e miramos a ponte românica de Ariz, exsudando solidez por todas as pedras. Não tem um adorno estético, nem um murete funcional, apenas solidez. É outra tela pincelada a cinzento e verde que os nossos olhos emolduram.
      A Capela de Nossa Senhora da Fonte Santa, contígua ao periclitante Penedo da Fonte homónima, marca a nossa entrada na Serra da Nave. E de muitos mais penedos se faz este final de sábado. Louvável a iniciativa de assinalar em painéis as estranhas formas de algumas formações rochosas. Com o sol a escoar-se no céu, como areia numa ampulheta, só conseguimos fotografar três: a cobra, a baleia e o cavalo sem cabeça, mas identificamos todas as outras. Muitas orcas, a das Seixas ainda, incomummente, meio enterrada na sua mamoa, e um menir estela aguardam-nos há cinco mil anos, pelo que é necessário pôr as rodas ao caminho.
      De caminho em caminho, de orca em orca, cruzamos a Necrópole Megalítica da Nave e subimos, ainda mais, ao Parque Eólico de Moimenta da Beira, para apreciar algo muito mais recente. Como actualizados moinhos da La Mancha de D. Quixote, entre muitos outros, dois aerogeradores giram as suas longas e esguias pás, perturbando o ar com compassados zumbidos, orgulhosos das decorações de Vihls e Joana Vasconcelos que ostentam nas suas torres. À luz do lusco-fusco, a experiência ainda é mais surrealista.
       Sem mais demoras, Serra abaixo que é chegada a noite.
     O domingo amanhece tão cinzento quanto frio. No Terreiro das Freiras, centro do centro histórico de Moimenta da Beira, onde nos aguardam as guias para a visita às histórias da Biblioteca Municipal Aquilino Ribeiro e Igreja do Convento de Nossa Senhora da Purificação, balizas dos dois extremos da conservação do património, as mãos têm alguma aversão a deixar os bolsos dos casacos. A Biblioteca instalou-se de livros e bagagens numa excelente e inspirada recuperação do Solar dos Guedes. Se ler ou consultar um livro é sempre algo de enriquecedor pelos mundos que nos desvela, imagino a especial sensação de o fazer dentro daquelas paredes, abrigado a tal patrono. Do outro lado do Terreiro, o Convento de Nossa Senhora da Purificação, com a sua curiosa varanda no telhado, debruçada para a rua, encontra-se em mãos privadas, mas necessita urgentemente de uma mão que lhe dê destino, um objectivo, dignificando-o. A sua Igreja, pese a imponência que ainda retém, lamenta a perda de partes da sua história nas brumas do tempo. A Fonte da Pipa e a sua passagem ‘secreta’ para a saída das freiras é só um levantar de véu para todos os episódios, certamente muito curiosos, que aquele convento anseia por transmitir, mas mantém, contra vontade, atrás de fortes portas cerradas ao público.
    Numa quelha discreta, a quinhentista Casa da Moimenta, arvorando na fachada a efígie do carrasco, berra, como o terão feito muitos dos que ele executou, por alguém que a salve. Será por represália que não lhe acodem? Tal património, que sobreviveu a séculos, irá morrer no nosso? Ficaremos nós com essa vergonha?
    Orgulho tem Moimenta da Beira na sua deliciosa maçã de altitude. Da Biblioteca, onde nos aguardavam, para as bagageiras das viaturas transitam várias caixas destas maçãs. Como não?
   Impõe-se saber o que torna famoso este fruto pelo que, por quilómetros, seguimos as guias (que as há assim) até um imenso pomar de macieiras, no qual a dedicação de há dezenas de anos do proprietário tem dado frutos, literalmente. A pé, descemos o monte perpendicularmente aos quase nunca acabar paralelos segmentos de recta que formam os corredores de macieiras. Não são as típicas árvores da maçã que temos nos nossos quintais, com copa. Antes parecem videiras grandes. Deve ser impressionante, lá por alturas de Setembro, saborear com os olhos aqueles corredores verdes carregados de berlindes vermelhos e amarelos. E a pé subimos o monte do outro lado, perpendicularmente aos quase nunca acabar paralelos segmentos de recta que formam os corredores de macieiras, de grande que aquele pomar é. Tal como com a castanha, no dia anterior, é muito esclarecedor e curioso desvendar-se a ciência e alguns pormenores que tornam esta maçã única e deliciosa. Quando voltarmos para a castanha...
    Precisamente por não ser longe e dispormos de algum tempo, decidimos voltar ao cimo da Serra para ver, de dia, os aerogeradores decorados. Se no sábado, ao lusco-fusco, a paisagem pareceu surrealista, que nos poderá impressionar ao vê-la à luz do dia? Bom, os termómetros das viaturas marcam 2ºC, o vento está forte e as nuvens cerradas e pintadas de cinzento-escuro. Quase alcançado o cimo, começa a chover. Mas, ‘Será chuva? Será gente? Gente não é, certamente, e a chuva não bate assim.’. Tal como no poema[i] de Augusto Gil, é neve! Flutuando erraticamente na corrente do vento, os pequeninos flocos esmagam-se em mil gotas contra os nossos pára-brisas. É verdade que não se mantêm, mas são o suficiente para vestir de fantasia a nossa incursão.
    Este AzimuTTe por Terras do Demo aproxima-se do fim. Tomamos a direcção de Rua, onde o casario constitui um excelente cenário para a bela igreja românica, com a bela Fonte de São Francisco, trasladada das ruínas próximas do quatrocentista Convento do mesmo Orago, complementando o adro onde um belo relógio de sol bate as horas ao povoado. O belo pelourinho manuelino encontra-se um pouco mais abaixo na rua, como se estivesse amuado. O Presidente da Junta de Freguesia recebe-nos de portas abertas, literalmente, cedendo o Centro Paroquial para almoçarmos abrigados da intempérie convocada para a nossa despedida.
   É já com saudade e, sobretudo, muito gratos por toda a simpatia, disponibilidade, paciência para com os nossos pedidos, alguns extemporâneos, e atrasos, a toda a gente que connosco privou, fossem edis ou técnicos municipais de Sernancelhe e Moimenta da Beira, ou privados, como a Quinta da Seara, Fundação Aquilino Ribeiro, pomar de macieiras de António Manuel Pinto, José António, do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção, que nos vamos separando. Acorre-me à memória uma frase de Sérgio Amaral, artista ceramista e escultor de Santa Luzia (Mangualde)[ii], quando nos disponibilizou a sua casa para o nosso almoço volante: «É a hospitalidade beirã.».
     Estas beirãs Sernancelhe e Moimenta da Beira, a castanha e a maçã, são as minhas duas ‘cities’ do título do livro de Charles Dickens[iii] com que abri esta já longa crónica. Esse livro começa assim: ‘It was the best of times, it was the worst of times, (…)’. Descaradamente, roubo-lhe o início desse início para o meu final: It was the best of times!
  
Texto: Nuno Furet
 Fotografias: António Elísio, António Marques, Catarina Vale, Celeste Carrasco, Clara Júlio, Clara Silva, Eduardo Antunes, Fernando Paixão, Guilherme Vicente, Helena Paixão, João Veríssimo, Jorge Mota, Nuno Salgueiro, Sónia Salgueiro, Nuno Furet

[i] GIL, Augusto (1873-1929, Balada da neve, in https://www.escritas.org/pt/t/2470/balada-da-neve
[ii] Ver AzimuTTe: Terras de Azurara, in www.azimuttezero.pt
[iii] DICKENS, Charles (1859), A tale of two cities, Inglaterra
 
 
AzimuTTe Zero - Aventura e Rumos 4x4 (Nuno Furet) é um Agente de Animação Turística e Turismo de Natureza (R.N.A.A.T. n.º 677/2018), que se dedica à organização de actividades culturais e recreativas, visando promover o conhecimento do património, seja ele histórico, natural ou cultural.
Enviar para trás